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Uma polca bem temperada

Publicado por 
novaescola
Objetivo(s) 

Analisar a primeira música genuinamente brasileira e seu impacto na sociedade

Conteúdo(s) 

Maxixe

 

Ano(s) 
Tempo estimado 
Duas aulas
Material necessário 
Desenvolvimento 
1ª etapa 

Tudo começou quando Porfírio passeava pela Rua da Imperatriz numa noite. Viu Glória a polcar e, ao lado de outros curiosos na calçada, assistia atento à cena emoldurada pela janela de uma casa em que se dançava. Com "olhos de sátiro, acompanhou-a em seus movimentos lépidos, graciosos, sensuais, mistura de cisne e de cabrita. (...) No dia seguinte, acordou resoluto a namorá-la e desposá-la." Carne e espírito se fundindo no signo da dança, despertando desejo e sublimando as dificuldades, sobretudo financeiras, do dia-a-dia. É assim o início do conto Terpsícore, escrito por Machado de Assis.

Difícil imaginar como uma polca poderia inspirar desejos ardentes no pobre Porfírio. A dança europeia, mesmo que de pares enlaçados, seria polida demais para despertar tais efeitos. Mas a polca a que Machado se referia era na realidade o maxixe, considerado por alguns como o primeiro gênero musical genuinamente brasileiro. Herdeiro do tango espanhol, da havaneira cubana e da polca europeia, aliou-se à síncope afro-lusitana e produziu um gênero suficientemente lascivo - especialmente na dança - para enrubescer moças de família e ter seu nome evitado entre o público distinto. Não era, certamente, o caso de Machado de Assis, que ironizou a hipocrisia renitente da sociedade brasileira diante do maxixe no conhecido conto Um Homem Célebre (veja indicação ao final deste plano).

Através de Terpsícore, não é difícil imaginar o clima instaurado em um pagode (leia-se "festa") no fim do século XIX no Rio de Janeiro. A elegância da dança, associada ao requebro dos quadris de Glória permite-nos imaginar o ritmo sincopado, o suor dos corpos, a lugubridade, a alegria e sua habilidade nos volteios. Talvez muitos esquecessem os músicos espalhados pelo cômodo da casa, responsáveis, em grande parte, por todas essas sensações, já que ainda não existiam formas mecânicas de reprodução ou gravação de sons. De qualquer maneira, é durante a dança ao som do ritmo amaxixado que marido e mulher se esquecem das dívidas, pois "contas, aluguéis atrasados, nada [vinha] ali dançar com eles."

A arte, seja por meio da música, da dança ou da literatura, revela ao historiador, de maneira agradavelmente condensada, todos os desvãos da história, as palavras não ditas e não escritas, os gestos escondidos, os pensamentos não autorizados. No conto de Machado estão as mazelas sociais, o lugar do feminino no fim do século, o dia-a-dia, os costumes, a maneira pela qual a cultura considerada "erudita" transita para os setores populares e como ela é lida e reelaborada nos cortiços e favelas.

Se a literatura já se tornou aliada dos historiadores na pesquisa acadêmica e na sala de aula, a música ainda encontra empecilhos técnicos e teóricos para atingir as escolas de nível básico e médio. Para o primeiro problema, a internet e a possibilidade de gravar e reproduzir músicas em MP3 já são um passo considerável para a escuta atenta e análise de músicas em sala de aula. Para o segundo, por maiores que sejam as dificuldades, basta lembrar aos alunos que a audição é o único dos nossos sentidos que não conseguimos controlar. Somos obrigados a ouvir.

Uma leitura coletiva do texto de VEJA vai mostrar que Clara Sverner ajudou a resgatar a música brasileira do século XIX, período de ouro do maxixe. Para apresentar esse ritmo, comece com uma atividade de sensibilização dos alunos. Eles devem escolher músicas que estão acostumados a ouvir, selecionar as que mais gostam e falar, pensar ou escrever as sensações que elas provocam neles. Vale a pena trazer algumas delas para a sala de aula e escutar com a garotada. Em seguida, apresente uma gravação de polca europeia. Peça que eles anotem ou abra um debate sobre o que sentiram. Coloque novamente um trecho da música e chame a atenção para os instrumentos que compõem a peça. Levante hipóteses sobre o espaço em que essa música era tocada e como era dançada. Ajude a turma a recriar mentalmente o local, os trajes, os gestos.

Em seguida, apresente um maxixe, como o Corta Jaca, interpretado pelo Grupo Chiquinha Gonzaga (veja indicações abaixo). Lembre que a gravação de sons ainda possuía muitas limitações técnicas e que o que se ouve hoje não é o mesmo do que se ouvia "ao vivo" nas casas e ruas do Rio de Janeiro. Os jovens certamente notarão muitas diferenças entre um ritmo e outro, sobretudo se o maxixe for uma canção com letra. Chame atenção para a síncope, com a presença de ritmos africanos e latino-americanos. Ajude-os a perceber essa mistura de gêneros selecionando um trecho ou uma frase musical. Explique que o maxixe surgiu na década de 1870, no Rio de Janeiro, inicialmente como uma dança e, logo após, como um estilo musical. O maxixe representa um abrasileiramento da polca europeia, que chegou aos salões cariocas em meados do século XIX, com ritmo do 2/4 em alegretto, substituindo o 3/4 típico das valsas.

Esta adaptação da polca aos trópicos ocorreu a partir das tentativas dos músicos de choro em moldar o ritmo das polcas aos requebros de corpo com que negros, brancos e mestiços do Rio teimavam em complicar os passos típicos da dança de salão. Inicialmente interpretada nos pianos de requintados salões, a polca começou a se popularizar, passando a fazer parte do repertório dos chorões que, com seus violões, cavaquinhos, flautas e oficlides (um tipo de instrumento de sopro), criavam novas modulações e alternâncias rítmicas que, por fim, levaram ao maxixe.

Imediatamente, o novo ritmo feriu as sensibilidades da elite conservadora, especialmente pela dança, considerada lasciva. Por esse motivo, muitos maxixes foram editados como tangos. Uma entusiasta do ritmo, Chiquinha Gonzaga, dizia claramente que chamava de tango os seus maxixes para não prejudicar a circulação de suas partituras nas casas de família.

Conclua a aula solicitando, novamente, que eles recriem mentalmente o local, os trajes e os gestos, desta vez com relação ao maxixe. Entregue o conto Terpsícore de Machado de Assis aos alunos para lerem em casa.

2ª etapa 

Faça a verificação de leitura do conto de Machado e associe-o à música ouvida na aula anterior. Pergunte à turma em que sentido o conto ajudou a compreender melhor o ritmo ouvido. Por fim, encomende um texto individual em que os alunos reflitam sobre o prazer do brasileiro em dançar, particularmente passos sensuais. Se já no século XIX um ritmo nacional abalava a moral vigente, os jovens podem perceber que a lambada, a dança da garrafa e o funk, entre outras, não são propriamente uma grande novidade: apenas preservam uma tradição que diz muito sobre o espírito do nosso povo.

 

Quer saber mais?

INTERNET
O portal do MEC oferece a obra de Machado de Assis, incluindo os contos Um Homem Célebre e Terpsícore.
O site do Instituto Moreira Salles possui inúmeras gravações de maxixes do começo do século passado.
A edição histórica de VEJA sobre a proclamação da República traz um texto sobre o impacto do maxixe na sociedade da então capital do Brasil.

 

Créditos:
Camila Koshiba
Formação:
Professora de História da Escola Nova Lourenço Castanho, em São Paulo
Autor Nova Escola

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