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Refletir sobre a arte a partir da leitura de obras

Publicado por 
novaescola
Objetivo(s) 

Produzir, apreciar e refletir sobre a arte partindo da leitura de obras

Ano(s) 
Material necessário 
Desenvolvimento 
1ª etapa 

Introdução

Jesus, quem diria, além de ser um judeu do século 1, tinha a aparência de um judeu daquele tempo! A reportagem de VEJA informa como arqueólogos e especialistas em reconstituição facial aposentaram as imagens de um Cristo de cabelos lisos e finos traços europeus que predominaram nos últimos 500 anos - das criações dos pintores renascentistas às produções cinematográficas como Jesus Cristo Superstar. Em seu lugar surgiu um rosto moreno, de nariz grosso, barba e cabelos crespos. Segundo seus criadores, essa aparência oriental deve estar mais próxima do "Jesus real", embora, é claro, ninguém saiba como efetivamente era o profeta nazareno. Mas construir um visual mais verossímil é mesmo importante? Como surgiram as imagens de Buda, Jesus ou Zumbi dos Palmares, que não foram retratados em suas épocas? Uma representação artística não guarda distância em relação ao objeto a que se refere? Discuta essas questões com os estudantes: eles verão a arte e seus objetos com outros olhos.

Trabalhar com leitura de obras de arte exige que se ofereçam reproduções de boa qualidade para análise. Busque em seus livros ou em bibliotecas algumas figuras que representem Cristo graficamente. Procure ampliar a possibilidade de comparações escolhendo reproduções de obras realizadas em diferentes linguagens artísticas, como pintura, escultura e desenhos. Não esqueça os mosaicos bizantinos e as representações metafóricas de Jesus como um cordeiro ou um pastor, do início da Era Cristã. Recorra também a representações modernas, caso da Descida da Cruz, de Brecheret, ou das Santas Ceias de Andy Warhol e Salvador Dalí. E ainda do magnífico Cristo Alado da Igreja de São Francisco da Penitência, no Rio de Janeiro, mostrado na pág. 79 de VEJA. Procure outras imagens de Cristo nas caracterizações do cinema, do teatro ou de séries da televisão (um bom exemplo é o Auto da Compadecida). Leve também para a sala uma moeda de 1 real.

 

Entre a realidade, sua percepção e a representação visual há uma longa distância que abre espaço para a imaginação criadora e para a diversidade de referências pessoais e sociais. Você pode iniciar a aula pedindo que todos façam um rápido desenho da face frontal de uma moeda de 1 real, partindo da memória visual. Dê apenas 3 minutos para esse trabalho. Solicite que cada estudante compare sua produção com a dos colegas das carteiras mais próximas. Depois, levante com o grupo as diferenças e semelhanças encontradas. E confronte os desenhos com a moeda.

Chame a atenção dos alunos para o fato de que, nesse exercício, partiu-se de um objeto que todos conheciam. E se fosse pedido que todos desenhassem a figura de Cristo? Peça que eles conversem em grupos de três ou quatro, indicando quais seriam as características físicas atribuídas a Jesus. Anote no quadro-negro os comentários de cada subgrupo.

2ª etapa 

Após a leitura dos textos "A Última Face de Cristo" e "Jóia Rara", exiba várias imagens de Jesus e promova uma discussão que leve os estudantes a perceber como a linguagem e o pensamento visual em cada época reforçam aspectos e utilizam diferentes recursos plásticos. Entre outros, os aspectos abaixo podem direcionar o debate.


De que perspectiva poderíamos fazer classificações com base na leitura dessas reproduções? Chame a atenção para características como as preocupações mais realistas ou abstratas dos autores, as expressões dos rostos, as proporções e deformações, o emprego das cores e dos contrastes de luz e sombra etc.
Que relações podem ser feitas entre os desenhos das moedas de 1 real e as várias imagens de Cristo?

De que modo as diversas representações de Jesus foram se ajustando a moldes, a ponto de haver tipos definidos como o Cristo Alado e o Senhor Morto, citados em "Jóia Rara"? Esse procedimento também se verificou nas imagens de Buda ou Zumbi? A representação de Jesus como negro (no Auto da Compadecida) ou hippie (em Jesus Cristo Superstar) visa quebrar deliberadamente tais padronizações?

Sugira que a turma pesquise ícones, músicas e filmes sobre os personagens focalizados e realize produções individuais e coletivas sobre eles.

 

Para saber mais 

Com freqüência olhamos uma imagem ou uma palavra e ela se torna uma referência do real. Mas nem sempre percebemos como nosso repertório pessoal (que envolve tudo o que sabemos, pensamos e sentimos, mesmo sem nos dar conta) ilumina de modo diferente o que vemos, ouvimos, lemos, experimentamos...

Assim, entre a realidade e o modo como a expressamos ocorrem diferenças cruciais. As manifestações artísticas - poemas, contos, pinturas, esculturas, músicas, peças teatrais, danças etc. - mostram a maneira pessoal e única pela qual o artista percebe, pensa e sente o mundo real ou imaginário, sem que deixe de estar influenciado por seu contexto histórico, artístico e cultural. O belga René Magritte (1898-1967) pode nos ajudar a rever essas questões (veja o quadro abaixo).

Por isso, aprender a "ler" palavras, imagens, sons e gestos é mais do que juntar letras ou simplesmente ver e ouvir. É também interpretar, construir significados, ampliando nossas referências para compreender mais profundamente. A leitura de obras de arte nos exercita na qualidade de construir sentidos, pois a imaginação e a percepção do autor geram interpretações singulares.

Conversar sobre sensações, percepções, interpretações e análises amplia nosso entendimento das possibilidades de leitura e nos faz mais atentos e sensíveis ao mundo que nos cerca. Afinal, como disse o pintor suíço Paul Klee, "a arte torna visível o invisível".

 

Texto de apoio

Isto é um cachimbo ou não? Por quê?
Talvez haja um estranhamento ao olhar para o óleo sobre tela reproduzido ao lado. A imagem representa um cachimbo - mas as letras caprichadas afirmam, em francês, que "isto não é um cachimbo". Por que o surrealista René Magritte, autor da pintura, faz tal afirmação? Porque não se trata de um cachimbo. Entre o signo- palavra cachimbo e as significações e a construção de sentido que ele pode ganhar há um espaço que envolve cada sujeito que a lê. Assim, também entre a imagem do cachimbo e o objeto real existe um percurso de interpretações. Magritte expõe com clareza que o cachimbo da pintura não é um cachimbo, assim como a palavra também não o é. Ambas - palavra e imagem - são representações: re-apresentam algo da realidade. Essa ambigüidade é expressa pelo pintor numa série de obras intitulada Isto Não É..., produzida entre 1928 e 1966.

Assim, no auto-retrato Perspicácia, Magritte representa a si mesmo enquanto observa um ovo e pinta um pássaro. Talvez ele pudesse ter imaginado um avestruz, uma cobra ou um galo, que também nascem de ovos, mas pinta uma pomba e nos remete ao símbolo da paz. O título, no caso, dá mais uma pista para a compreensão do que é ser perspicaz: "que vê bem; que observa; penetrante; dotado de agudeza de espírito, ou que denota essa qualidade; fino, sagaz; observador; inteligente, talentoso".


Veja também:

BIBLIOGRAFIA
A Língua do Mundo: Poetizar, Fruir e Conhecer Arte
, Mirian Martins e Gisa Picosque, Ed. FTD, tel. (11) 3611-3055

Créditos:
Mirian Celeste Martins
Formação:
Professora do Instituto de Artes da UNESP, de São Paulo
Autor Nova Escola

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