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Os músicos e os poderosos

Publicado por 
novaescola
Objetivo(s) 
  • Levar a turma a pesquisar a relação entre os músicos e os políticos ou mecenas que os financiavam e acolhiam
  • Apresentar a produção musical dessas personagens
  • Refletir sobre aspectos estilísticos da produção de diferentes músicos
Conteúdo(s) 
  • Poéticas pessoais e processos colaborativos em arte
  • A operação poética de levantamento de hipóteses, escolha e testes de elementos da gramática das linguagens artísticas
  • O revelar das temáticas
Ano(s) 
Tempo estimado 
Cinco aulas
Material necessário 
  • Aparelho para tocar música
  • Televisão ou projetor de imagem
  • Computador com acesso à internet
  • Cópias da reportagem "Maestro Marionete", (Veja, edição 2362, 26 de fevereiro de 2014)

Conteúdo relacionado

Este plano de aula está ligado à seguinte reportagem de VEJA:

 

Desenvolvimento 
1ª etapa 

Introdução
Veja traz uma breve reportagem que mostra as críticas de músicos e políticos sobre as atitudes do maestro Gustavo Dudamel em relação ao governo do seu país, a Venezuela. Dudamel tem sido apontado como "cúmplice" do regime chavista, até porque parte do financiamento de suas atividades vem do Estado.

O maestro é verdadeiro garoto-propaganda de "El Sistema", um projeto de educação musical iniciado em 1975 pelo músico e educador José Antonio Abreu. O projeto garante a crianças de boa parte do país - especialmente as que moram em comunidades pobres - a possibilidade de se profissionalizar em música e ascender socialmente.

A reportagem de Veja evidencia a ligação dos músicos ao poder. Mas esse fenômeno não é só da nossa época. Não faltaram casos semelhantes ao longo da história da música ocidental. Vamos investigar sobre alguns deles nesta sequência didática, que atravessa quatro cenários diferentes do período barroco. Cada um dos cenários pode ser trabalhado de muitas outras maneiras além das apresentadas aqui, tanto do ponto de vista histórico-social quanto do musical.

Inicie uma discussão com seus alunos. Você pode propor algumas das seguintes perguntas:

  • Será que a produção musical de um país pode ser considerada completamente independente - isto é, os músicos têm toda a liberdade que querem para criar?
     
  • Há algumas "regras" e restrições nesta produção? Quais são as regras? Sabemos das suas origens?
     
  • Qual é o papel de diferentes esferas de poder na definição da música que se produz a cada tempo?
     
  • O que é que se produz em música hoje? Por que é que os estilos musicais estão por aí, em detrimento de muitos outros?
     
  • Os instrumentos usados, a letra das músicas e sua estrutura formal - isso é, a organização em termos de refrãos, estrofes, etc. - dizem respeito à nossa época? De que forma?


Em seguida, distribua cópias ou projete em sala a reportagem de Veja "Maestro-marionete". Contextualize "El Sistema" e aponte as fontes utilizadas na argumentação trazida pelo texto. Ressalte como fica visível a influência do poder do Estado sobre o desenvolvimento musical do país. Em seguida, pergunte aos alunos se eles sabem como essas questões eram tratadas há 300 anos nas cortes europeias.

2ª etapa 

Mostre aos alunos como a obra do compositor Jean-Baptiste Lully (1632-1687) foi fundamentalmente influenciada pelo poder da corte do rei Luís XIV, da França. Explique como a proximidade do poder permitiu ao compositor comandar a produção musical do país. Aponte como, por conta dessa influência, Lully incorporou novos aspectos estilísticos para a música da época. Você pode obter mais informações no box abaixo:

Jean-Baptiste Lully e a bajulação ao Rei Sol

O italiano Lully ingressou ainda adolescente na corte francesa. Remando a favor da maré, logo subiu aos mais altos postos no governo de Luís XIV, o Rei Sol. Começou sua carreira compondo de música instrumental para o soberano. Assumiu uma orquestra de cordas real chamada 24 Violons du Roi (24 violinos do rei) e chegou ao cargo de Superintendente da Música de Câmara.

A partir daí, sua carreira continuou com a composição de balés, que ele mesmo e Luís XIV dançavam. Lully também compôs pequenas peças sobre mitologia, temas da vida francesa, e glorificações do rei e da França, os chamados divertissements.

No contexto da corte, o compositor produziu as primeiras óperas significativas criadas na França, que o tornaram famoso até hoje. Antes, de Lully e seu antecessor as [eças eram importadas da Itália.  Com o objetivo de bajular o rei, o músico desenvolveu a "abertura francesa", uma peça musical no início das óperas que saudava a presença do monarca.

Mostre para os alunos a letra da ária "Bois épais" ("denso bosque"), da ópera "Amadis" (1684) A peça é cantada pelo cavalheiro Renaud e pode ser traduzida livremente assim:

Denso bosque

Denso bosque, aumenta tua sombra
Não poderias ser escuro o bastante
Não poderias esconder muito bem
Meu amor infeliz

Sinto um desespero
Cujo horror é extremo
Não verei mais o que eu amo
Não quero mais sofrer a luz do dia

Comece, então, questionando aos alunos: com esta letra, como será o caráter da música que vão escutar: dançante, romântico, trágico? Proponha então a escuta da ária, disponível no Youtube.

Ressalte que a introdução orquestral já apresenta o caráter dramático da cena. Mostre o papel desempenhado pelos instrumentos de corda, sustentados pelos acordes do cravo, um instrumento muito utilizado na ópera da época como acompanhamento.
Mostre no início da ária o conceito de abertura francesa: uma introdução pomposa para a música que vem em seguida. Aponte como, a primeira parte da música se relaciona à contemplação da paisagem e a segunda tem maior dramaticidade

Enfatize o quanto a música está a serviço do texto. O francês é uma língua difícil de declamar em uma música, em razão dos seus fortes acentos a cada frase. Por isso, o compositor criou pequenas pausas no final de cada frase e pontua com o ritmo as sílabas fortes.

Proponha que os alunos tragam informações sobre a trágica morte de Lully, que, ironicamente, tem a ver com seus serviços musicais prestados à corte.

3ª etapa 

Apresente e contextualize a obra do inglês Henry Purcell (1659 - 1695). Ressalte a influência evidente de seus empregadores e o momento político pelo qual passava a Inglaterra. Da mesma forma que no cenário anterior, utilize o texto de base para contextualizar.

Henry Purcell e o teatro restoration spectacular

Henry Purcell é considerado um dos maiores compositores ingleses de todos os tempos. Aos 20 anos, Purcell já ocupava o cobiçado cargo de organista oficial da abadia de Westminster. A partir daí, circulou em esferas políticas superiores. Por isso, sua obra reúne muita produção para serviços da corte e da igreja: peças sacras e mesmo de saudação aos reis.

Nos últimos anos de vida, Purcell se dedicou também à ópera. O contexto político em que atuou foi decisivo para a produção de suas obras. Nessa época, o rei inglês Charles II venceu a Guerra dos Três Reinos e obteve poder sobre a Inglaterra, Escócia e Irlanda, comandando as monarquias desses países.

A grandiosidade desta restauração política foi transfigurada para o palco da ópera. Artistas ligados à corte criaram espetáculos com dança, cenografia móvel, ilustração barroca ilusionista, figurinos fantásticos e efeitos especiais como fundos falsos, fogos de artifício e atores voando. Esse teatro baseado em mecanismos elaborados ficou conhecido como "restoration spectacular".

Toque para os alunos a peça instrumental "Entry of Phoebus" (Entrada de Febo), que faz parte do 4º ato, movimento 30, da ópera "The Fairy-Queen" - A Rainha-Fada, de 1692. Explique a obra é uma adaptação da peça "Sonho de uma noite de verão", de William Shakespeare ( 1564 (?) - 1616). Aponte que a peça teve sua partitura redescoberta por musicólogos apenas em 1901.

Conte que, no ato IV, Titânia comemora o aniversário de Oberon. Nessa ocasião, há um esquete do Rei Febo (o deus da luz) e das quatro estações apresentando-se aos convidados. Assim, "Entry of Phoebus" é uma peça que anuncia a entrada do Rei Sol.

Projete esse trecho para os alunos - você pode encontrá-lo a partir dos 3m15s deste vídeo do youtube. Explique para os alunos que se trata de uma montagem recente da ópera, resgatando elementos da época.

Destaque como ficam evidentes no palco os elementos do restoration spectacular: o rei sol desce dos céus sobre um cavalo dourado, surgindo no meio das nuvens. Ressalte para a turma que essa cena foi representada de forma semelhante há mais de 300 anos e a música de Purcell deveria dar conta da grandiosidade da cena. Mostre como o compositor salda o rei sol de forma pomposa, com trompetes e tímpanos sustentados pelo cravo na orquestra.

Questione os alunos:

  • Como é que esta breve música representa a grandiosidade da cena - e, em paralelo, a grandiosidade do reino de Charles II na época?

 

  • Quais são as técnicas musicais empregadas por Purcell para isso?


Após a discussão, lembre que, 300 anos depois, o trompete ainda é usado para anunciar a entrada das noivas no altar ou o início de cerimônias militares oficiais em muitos países.

4ª etapa 

Aborde a vida e obra do compositor italiano Antonio Vivaldi (1678-1741) cuja vasta produção musical só pôde acontecer em razão abudnância de encomendas feitas pelos seus patrões.

Vivaldi e o poder dos nobres italianos

Antonio Vivaldi começou ainda criança os estudos de violino e para o sacerdócio. Tornado padre em 1703, foi nomeado professor de violino em um orfanato e escola de música para meninas em Veneza.

Na instituição, Vivaldi recebia encomendas de dois concertos ao mês, ao mesmo tempo em que compunha frequentes peças sacras e óperas para os nobres e burgueses das cidades de Veneza, Mântua e Roma.

Pouco antes de morrer, foi banido cidade de Ferrara por um cardeal que o considerava indigno. Com a reputação abalada, Vivaldi viu o valor de suas obras ser questionado pela nobreza. Ele morreu esquecido, em 1741, na cidade de Viena.

Durante a vida, Vivaldi produziu mais de 500 concertos, 85 sonatas, 55 óperas, além das dezenas de músicas sacras. Devido a essa grande quantidade de trabalho, o compositor desenvolveu maestria na composição dos concertos e criou novos elementos estilísticos. O seu conjunto de concertos "As quatro estações", publicado em 1725, é hoje uma das peças mais executadas do mundo. 

Depois de explicar o contexto, ouça com os alunos o primeiro movimento de "Primavera", de "As quatro estações", também disponível no Youtube. Destaque nesta peça alguns dos elementos estilísticos que Vivaldi desenvolveu. Explique que a peça é programática, ou seja, descreve uma cena. Então faça perguntas aos alunos

  • A partir do título "Primavera", o que é que a primeira parte da peça descreve?
  • Quais são as técnicas instrumentais empregadas para isso?
  • O que o som agudo dos violinos procura imitar?


Após a discussão trabalhe com a ideia de intensidade: pergunte se os alunos perceberam a alternância entre trechos fortes e fracos na música. Mostre que o movimento obtido por Vivaldi com essa técnica é uma característica marcante do gênero musical concerto.

Peça que os alunos identifiquem os instrumentos da música. Depois de ouvir a turma, fale detalhe os instrumentos usados - violinos, violas, violoncelos e contrabaixos - acompanhados pelo cravo, que os sustenta.

Então questione: quantas diferentes "camadas" musicais é possível perceber nesse concerto? Mostre que há três camadas na obra: um violino que toca sozinho (solista, em italiano), os acordes do cravo (que constituem a base da orquestra, ou basso continuo) e, por fim, ou outros instrumentos no meio (conhecidos como ripieno).

Explique que o trabalho de Vivaldi nos concertos foi fundamental para o desenvolvimento desta forma musical ao longo dos séculos seguintes. Isso porque uma das bases do concerto é a alternância entre momentos do instrumento solista (aquele que se destaca do todo orquestra) e momentos da orquestra toda: o tutti orquestral. Mostre para os alunos que ainda hoje podemos encontrar nas músicas de muitas bandas a estrutura de solista, ripieno e basso.

5ª etapa 

Relacione turbulenta história de Johann Sebastian Bach (1685-1750) com a fuga, uma das formas musicais preferidas pelo compositor alemão. Desta vez, comece ouvindo sem mostrar vídeos a primeira parte da Toccata e fuga em Ré maior" de 1707, também disponível no Youtube (até os 2m30s). Pergunte aos alunos em que época a música foi composta e com qual finalidade. Provavelmente as respostas não mencionarão o século XVIII: a peça se popularizou depois de aparecer em alguns filmes e desenhos animados. Depois de revelar o contexto da obra, discuta com os alunos quais impressões eles têm à partir da execução.

Fale, então, sobre o funcionamento do órgão de tubos, instrumento utilizado nesta execução. Mostre como o organista três teclados e uma pedaleira para produzir os sons. Explique como a pedaleira altera o timbre do instrumento, permitindo ao órgão ter dezenas de diferentes registros: uns mais fracos, outros mais fortes e estridentes, como no final da música.

Apresente, então, o vídeo completo da peça, que dura cerca de 8 minutos. Peça que os alunos se atentem ao que acontece depois de 2m40s, quando começa a "fuga". Relacione o nome e a técnica. Explique que o organista toca um tema musical com a mão esquerda; depois começa a copiá-lo com a mão direita. Enquanto isso, sua mão esquerda parece "fugir" da destra, que a "persegue". Mostre que tudo se repete com os os pés, que repetem o tema na pedaleira. Ressalte que o resultado é uma polifonia, ou seja várias melodias tocadas ao mesmo tempo.

Relacione o que foi ouvido e a vida de Bach, mostrando que o compositor "fugiu" de certas situações e empregadores. Você pode usar o texto abaixo: 

As muitas fugas de Johann Sebastian Bach

Bach começou seus estudos de órgão aos 10 anos, e mais tarde foi nomeado organista na cidade alemã de Arnstadt. Lá começaram suas "fugas": brigou com um aluno, e por outras razões irritou os cardeais da cidade.

Mudou-se, casou-se e brigou com seus alunos em uma nova instituição. Finalmente, mudou-se para Weimar, mas o duque o afastou para a corte de Cöthen como mestre de capela, também por inconformidades políticas. Logo depois, foi empregado em Leipzig, onde morreu depois de perder a visão e com pioras na saúde.

No meio dessa vida instável, o compositor escreveu centenas de obras, entre peças instrumentais sacras, música para momentos cívicos, cantatas, concertos, e trabalhou até mesmo com docência.

 

6ª etapa 

Depois de abordar os quatro mestres do período Barroco retome às questões de início:

  • Até que ponto as questões políticas tiveram influência neste processo?
  • Isso trouxe diretas consequências para a produção musical da época - e para a evolução estilística a partir de então?
Avaliação 

Avalie o envolvimento direto dos alunos nos questionamentos, principalmente quando têm material extra em mãos (como a reportagem de Veja e os trechos de reportagens e biografias indicados). Considere também a atenção e disposição dos alunos em escutar os exemplos musicais selecionados e responder às questões propostas.

Créditos:
Tiago Madalozzo
Formação:
Mestre em Comunicação e Linguagens pela Universidade Tuiuti do Paraná e licenciado em Música pela Universidade Estadual do Paraná, é professor de musicalização na Alecrim Dourado Formação Musical, em Curitiba, onde desenvolve pesquisa e prática em educação musical.
Autor Nova Escola

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