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O feminismo e o mercado de trabalho

Publicado por 
novaescola
Objetivo(s) 

Discutir os dilemas enfrentados por mulheres que adentram o mercado de trabalho e o mundo corporativo

Conteúdo(s) 
  • Feminismo, relações de gênero e moda
Ano(s) 
Tempo estimado 
Duas aulas
Material necessário 
Desenvolvimento 
1ª etapa 

Introdução

Um problema que se pensava superado após os anos 1970, auge das revoltas feministas pelo mundo, persegue mulheres até hoje: como participar do mundo corporativo e ser profissional sem deixar de ser mulher? Mais do que um problema de aparência e moda, essa questão remete às hierarquias de gênero que regulam as relações sociais. A dificuldade de algumas mulheres em ser levada a sério por gerentes e clientes e em reuniões de trabalho vai muito além da roupa que ela decide usar. Interprete com a turma os sentidos que as roupas transmitem e as diferenças sociais nelas representadas, partindo do exemplo da reportagem de VEJA que discute o guarda-roupa profissional feminino.

 

Comente com os alunos os temas levantados por VEJA. Discuta com eles as diferenças de vestuário entre homens e mulheres no dia a dia. Algumas são óbvias, como o uso de vestidos e saias por mulheres e sua virtual proibição por parte dos homens. Pergunte para os meninos da turma se eles usariam saia (não vale dizer em festa à fantasia ou no carnaval). Provavelmente haverá um sonoro "não" de quase todos eles! Pergunte depois por que eles não fariam isso. Algumas respostas possíveis são um simples "por que eu sou homem". Tente investigar se eles compreendem os sentidos associados a esse tipo de vestimenta. Com base nas das respostas, comece a debater a dualidade de gênero que marca nossa sociedade.

Gênero é um conceito acadêmico que busca explicar a divisão dos seres humanos em homens e mulheres. Tal divisão, ainda que aparente ser totalmente natural (vide a dualidade genital que percebemos nas pessoas), é, na verdade, uma construção social. Explique para a moçada que pequenos detalhes cotidianos, como a proibição de saias para homens na nossa cultura, tornam explícito o esforço social que é feito para demarcar essa separação, que não tem nada de óbvia nem sequer é necessária. Explique que diferentes culturas dividem as pessoas de formas distintas, e que homens e mulheres em outras partes do mundo atribuem sentidos diversos ao seu gênero. Comente também o problema de pessoas hermafroditas: nasceram com os dois genitais; são homens ou mulheres? Essa questão aparece, vez ou outra, em esportes de alta performance (veja o quadro abaixo).

Para seus alunos 

Será que ela é?

Suspeitas sobre a sexualidade de atletas não são raras no mundo do esporte de alto rendimento. Ao contrário, ao longo dos anos, muitos casos foram registrados, envolvendo inclusive uma judoca brasileira. Em 1996, Edinanci Silva, que nasceu hermafrodita, precisou passar por um teste de feminilidade para poder disputar as Olimpíadas de Atlanta, nos Estados Unidos. O Comitê Olímpico Internacional autorizou a participação de Edinanci nos Jogos, mas o episódio marcou para sempre a carreira da paraibana.

Foto: divulgação
Foto: divulgação

Além dela, várias outras atletas passaram por situações semelhantes:

Caster Semenya 
A corredora sul-africana, de 18 anos, está ameaçada de perder a medalha de ouro conquistada nos 800 metros do Mundial de Atletismo, neste mês de agosto, em Berlim. Caso não passe por um teste de gênero sexual (ou caso o teste não confirme que ela é uma mulher), ela pode ter de devolver a medalha.

Stella Walsh 
Vencedora dos 100 metros rasos na Olimpíada de 1932 e medalha de prata em 1936, a polonesa chamava a atenção por seu biótipo. Entretanto, nunca aceitou fazer testes para a comprovação de sexo. Em 1980, após sua morte, a necropsia descobriu que o órgão genital de Walsh tinha características ambíguas.

Shanti Soundarajan 
Em 2006, a indiana perdeu a medalha de prata nos 800 metros rasos após fracassar em um teste de feminilidade. A avaliação foi conduzida pela Associação Olímpica da Índia, depois dos Jogos Asiáticos, no Qatar.

Erika Coimbra 
Em 1997, a jogadora brasileira de vôlei acabou cortada do Mundial Juvenil. Devido à má formação do aparelho reprodutivo, os exames da atleta, então com 17 anos, apontaram excesso de testosterona (hormônio masculino). Depois de um ano em tratamento, Erika conseguiu voltar a competir.

Heidi Krieger 
Atleta da Alemanha Oriental nos anos 1980, Heidi adquiriu características masculinas após usar esteroides por um longo período e em grandes quantidades. Depois de abandonar as competições de lançamento de peso, passou por cirurgia de troca de sexo e mudou de nome para Andreas.

 

Discuta a questão da feminilidade. Quais os sentidos associados a esse termo? Como identificamos uma mulher feminina, ou um homem feminino? Lembre à turma que a feminilidade, na nossa cultura, é sempre associada às mulheres, sendo rechaçada quando é característica de algum homem. Por que, afinal, seria pouco profissional uma roupa demasiadamente feminina, como discute a reportagem? A feminilidade, então, impossibilita o trabalho? Revela alguma fragilidade?

Tais questões já foram extensamente discutidas desde que as primeiras feministas, na virada do século XIX para o XX, lutaram para garantir às mulheres o direito ao voto. Ainda hoje, as mulheres no Brasil e no mundo lutam para conseguir direitos e oportunidades iguais na sociedade. Explique para a turma que pessoas do sexo feminino, segundo dados oficiais, ainda recebem menos do que homens para exercer a mesma função. Ora, se exercem a mesma atividade, qual o motivo do menor salário, senão uma questão de preconceito social?

2ª etapa 

Comente com a turma que, com base nas teorias sobre gênero, cientistas sociais mostram que associamos determinados corpos (machos ou fêmeas) a diferentes comportamentos e sentidos culturais. Homens e mulheres são, por isso, pensados como intrinsecamente diferentes em termos de suas características, desejos, capacidades e habilidades. Ainda que, na vida real, tais diferenças sejam bem menos marcadas. Afinal, homens e mulheres exercem todo tipo de atividade e, desde o surgimento do feminismo, cada vez mais mulheres participam ativamente da esfera pública, antes restrita aos homens. Hoje, mulheres participam da política com grande destaque (elas ocupam a presidência no Chile, na Argentina, na Índia, na Finlândia e na Irlanda, por exemplo) e lideram poderosos conglomerados. Ainda assim, ideias sobre feminilidade não mudaram tanto quanto poderíamos imaginar, como VEJA mostra.

O corpo de fêmeas, por exemplo, é diretamente associado à delicadeza e feminilidade. Isso fica claro quando vemos mulheres "viris", ou que se recusam a seguir os padrões sociais mais comuns: há uma repulsa imediata de muitas pessoas a tais personagens "desviadas". Segundo mostram cientistas sociais e feministas, há um trabalho social intenso que ocorre desde a infância, associando meninos a esportes, aventura, lutas e competição, e meninas a coisas do lar e objetos e atividades delicadas. Não há, portanto, nada de natural nessa forma de ser "feminino". A questão é cultural, até porque em outros tempos e/ou lugares, as ideias de feminino e masculino variam bastante.

A feminilidade, na cultura brasileira, é associada ao âmbito doméstico (cuidar da casa e dos filhos), à fragilidade e à vaidade. Dessa forma, mulheres são, em geral, pensadas como boas professoras (pois saberiam cuidar melhor de crianças), mas péssimas executivas (pois não seriam tão competitivas) ou policiais (por conta de uma suposta fragilidade física). Ainda hoje é motivo de espanto ver mulheres executando tarefas tradicionalmente masculinas, como lutar no exército ou dirigir táxis e ônibus.

O dilema da mulher executiva é, portanto, o de parecer profissional sem transformar-se em homem, o que seria altamente indesejável na nossa cultura. Enquanto homens não precisam fazer tanto esforço para parecer sérios no mundo do trabalho, mulheres precisam lidar com a ambiguidade de estar numa atividade pensada como tradicionalmente masculina, tendo de aparentar feminilidade. Roupas são apenas parte dessa equação: toda a aparência, a maquiagem e mesmo os gestos estão carregados de sentidos culturais. O saber portar-se no emprego torna-se, assim, uma tarefa das mais complexas.

Os avanços, no entanto, são facilmente perceptíveis, especialmente com a efetiva maior presença feminina nas empresas. A própria existência desse dilema sobre "o que vestir" demonstra a força das mulheres, que cada vez mais exploram seu lado profissional, buscam consolidar carreiras e ascendem a cargos de grande responsabilidade. Por outro lado, a questão expõe a fragilidade dessas conquistas. As mulheres ainda precisam provar o todo tempo que estão aptas ao mundo do trabalho. Mudanças culturais levam tempo para se firmar.

Conclua encomendando um texto individual em que os alunos se posicionem sobre a igualdade entre os sexos e se eles vislumbram o dia em que ela será atingida.

 

Quer saber mais?

BIBLIOGRAFIA
Problemas de Gênero
, Judith Butler, Ed. Civilização Brasileira, tel. (11) 3286-0802

 

Créditos:
Marko Monteiro
Formação:
Antropólogo e doutor em Ciências Sociais
Autor Nova Escola

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