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Futebol e identidade nacional

Publicado por 
novaescola
Objetivo(s) 

Identificar os processos de construção da identidade nacional e do nacionalismo 

Conteúdo(s) 

Cultura, identidade nacional, nacionalismo e globalização

 

 

Tempo estimado 
2 aulas
Material necessário 
Desenvolvimento 
1ª etapa 

Introdução

O escritor Nelson Rodrigues disse certa vez que a "seleção é a pátria de chuteiras", frase parafraseada no título da reportagem de VEJA. Todavia, parafraseando outra frase famosa, o futebol tem razões que a própria razão desconhece. A revista mostra como se formou uma "internacional da bola" pelos gramados do planeta, na qual se destacam brasileiros e argentinos. Mais ainda, aponta o grande número de brazucas naturalizados nas diversas seleções nacionais. Tal situação desperta velhos rancores nacionalistas - mas eles tendem a se desfazer quando o "importado" ajuda seu time a conquistar a vitória. Use o texto e este plano de aula como bases para examinar com os estudantes o fenômeno do esporte globalizado e as manifestações do nacionalismo nas diversas esferas da vida social.
 

Instigue o debate sobre a frase de Nelson Rodrigues. Faça um levantamento daqueles que concordam e dos que discordam da afirmação. Anote os argumentos mais utilizados na discussão.

Indague se os alunos sabem o que é nacionalismo. Ensine que esse sentimento não é algo natural, e sim uma construção histórica e social. O nacionalismo surgiu na Europa da Idade Moderna, acompanhando a formação dos Estados Nacionais. Em muitos dos atuais países europeus, esse processo foi impulsionado por uma aliança entre a Coroa e os mercadores. O rei tinha interesse em concentrar em suas mãos o poder político, até então repartido entre os mais poderosos senhores feudais. Por sua vez, para se expandir e se consolidar economicamente, a burguesia comercial precisava unir regiões até então separadas em feudos. A formação dos diferentes Estados Nacionais tornou viável a administração de grandes territórios, ao submeter toda a população às mesmas leis. Por meio da unificação política, a burguesia pôde atenuar e até mesmo extinguir as diferenças regionais, que atrapalhavam o desenvolvimento e a expansão do comércio.

No decorrer desse processo, emergiram "nacionalismos" fundamentados no compartilhamento de uma língua, de costumes, de tradições, de valores, de uma religião, enfim, de uma cultura e território comuns. Esses fatores favoreceram a formação dos Estados Nacionais, mas eles não surgiram num mesmo momento. Portugal, por exemplo, tornou-se um Estado Nacional em 1385, com a ascensão ao trono do rei D. João I, enquanto a Alemanha e a Itália só lograram promover sua unificação na década de 1870. O mais recente Estado europeu é Kosovo, onde predomina a etnia albanesa. O território separou-se da Sérvia e tornou-se independente em 2008.

Explore com a turma os aspectos positivos e negativos do nacionalismo. Por um lado, ele alimentou produções originais nas artes plásticas, na música e na literatura, como o romance indigenista Iracema, de José de Alencar, que exaltava as qualidades dos brasileiros nativos. Por outro, alimentou preconceitos e agressões contra minorias étnicas e guerras. Siga com a moçada o transplante dessas manifestações positivas e negativas para a esfera esportiva. As maiores torcidas de futebol do Brasil pensam em si mesmas como "nações": a nação rubro-negra, a nação corintiana e assim por diante. Elas não veem o menor problema em se identificar com estrangeiros, como o sérvio Petkovic e o argentino Tevez, respectivamente ídolos do Flamengo e do Corinthians. Essas torcidas oferecem manifestações de amor a seus times e, ao mesmo tempo, de uma hostilidade profunda às "nações inimigas", isto é, às torcidas de outros clubes. Isso ocorre porque as identidades individuais se constroem por aproximação, quando há a identificação do indivíduo com o grupo, e por oposição, quando o grupo, ao identificar-se como diferente dos demais, garante sua coesão interna. Proponha uma reflexão sobre algumas questões: o que o sentimento de adesão a um time de futebol oferece às pessoas? E o que o pertencimento a um país oferece? Por que o sentimento de pertencimento à pátria começa a perder importância na atualidade?

 

 

2ª etapa 

Retome a reflexão da aula anterior e observe que o sentimento de pertencimento a uma nação oferecia, até recentemente, uma identidade ao cidadão. Ninguém nasce com um "caráter brasileiro": a pessoa sente-se ligada à identidade brasileira ao compartilhar uma língua e os elementos constituintes de uma cultura. Nós, brasileiros, por exemplo, nos achamos simpáticos, extrovertidos e alegres, e isso de algum modo influi na representação que fazemos de nós mesmos.

Acontece que esse sentimento de pertencimento, que está na base do sentimento nacionalista, mudou, principalmente a partir do fim do século XX. Tal mudança, muito provavelmente, está relacionada com o fenômeno da globalização. Explique que a globalização só foi possível graças à terceira revolução industrial, que disseminou, muito rapidamente, modernos aparelhos tecnológicos que possibilitaram o aparecimento de uma complexa rede mundial de comunicação, de modo que nem o tempo e nem o espaço são hoje o que foram para as pessoas dos séculos anteriores.

Desse modo, o planeta conheceu um inusitado fluxo de informações: assim como as imagens referentes à vida dos países mais industrializados circulam sem fronteiras, disseminando valores e estilos de vida, também as imagens de nações pobres, com pequena inserção internacional, passaram a chegar a públicos antes inatingíveis.

O processo de globalização alterou a vida, os hábitos e a cultura dos cidadãos em escala planetária. Ele modificou o fluxo de trabalho e abalou consideravelmente as velhas identidades nacionais. As empresas transnacionais, típicas da era contemporânea, estão presentes em todos os países, de modo que já não há mais sentido em falar em "produto nacional".

A formação de uma rede global de comunicação fez do esporte um espetáculo também global. Hoje, um brasileiro pode ser torcedor do Barcelona, do Milan ou do Chelsea e acompanhar os jogos desses clubes europeus. E outros esportes, como o automobilismo, o vôlei e o tênis, que eram até pouco tempo desconhecidos do grande público e praticados por um número restrito de atletas, hoje gozam de um status equivalente ao do futebol.

Ressalte que a construção do esporte espetacularizado, possibilitada pela disseminação dos fluxos globais de imagens, acabou por envolver vultosos investimentos. Os grandes clubes dos países ricos, principais marcas desse esporte, passaram a recrutar os jogadores mais habilidosos onde quer que eles estivessem. Daí surgiu a "internacional da bola", com a valorização do jogador brasileiro ou argentino no mercado mundial de futebolistas. O passo seguinte, dado por muitos atletas brasileiros, foi adotar nacionalidade do país onde fizeram fortuna.

Sugira uma reflexão critica sobre essa situação. A naturalização dos expatriados se inscreve na lógica da globalização? Se o sérvio Bora Milutinovic foi treinador de cinco seleções diferentes em Copas do Mundo entre 1986 e 2002, por que um jogador não pode integrar mais de uma seleção? Os cartolas do futebol, que até bem pouco tempo estimulavam a contratação de membros da "legião estrangeira" para seus times, não são os mesmo que agora, diante da crise econômica, vestindo a velha roupagem do nacionalismo, tentam controlar ou diminuir os gastos por meio do estabelecimento de uma legislação que discipline ou freie o processo de globalização? 

 

Quer saber mais?

BIBLIOGRAFIA
Nações e Nacionalismos Desde 1780, Eric Hobsbawm, Ed. Paz e Terra, tel. (21) 3337-8399
Multiculturalismo, Andréa Semprini, Ed. Edusc, tel. (21) 3868-4744
A Mundialização da Cultura, Jean-Pierre Warnier, Ed. Edusc
Como o Futebol Explica o Mundo, Franklin Foer, Ed. Jorge Zahar, (21)2108-0808  

 

Créditos:
Débora C. de Carvalho
Formação:
Mestre em Sociologia pela Unesp Araraquara, em São Paulo
Autor Nova Escola

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