Aqui você pode pesquisar e adaptar planos já existentes

 


Etnobiodiversidade

Publicado por 
novaescola
Objetivo(s) 
  • Compreender o significado do termo etnobiodiversidade
  • Possibilitar a discussão sobre desenvolvimento sustentável
  • Reconhecer o que são comunidades tradicionais
  • Promover a discussão sobre conhecimentos tradicionais associados à biodiversidade e legislação que protege estas comunidades
Conteúdo(s) 
  • Biodiversidade, sustentabilidade, etnobiodiversidade.

 

Ano(s) 
Tempo estimado 
Quatro aulas
Material necessário 
  • Lápis, caneta, borracha, cadernos, folha pautada, cópias de textos, imagens.
  • Computadores com acesso a internet.
Desenvolvimento 
1ª etapa 

Introdução 

Esta é a quarta de uma série de dez sequências didáticas sobre biodiversidade para Ensino Fundamental de 6º ao 9º ano. A intenção deste plano é apresentar aos alunos o conceito de etnobiodiversidade e provocar neles uma reflexão sobre desenvolvimento sustentável e sobre mudanças no modelo econômico atual, baseado na industrialização. É viável promover o desenvolvimento socioeconômico e, ao mesmo tempo, garantir a conservação dos recursos naturais? Comunidades locais - também chamadas de tradicionais - nos ensinam que sim. Com estas aulas, a ideia é valorizar a participação desses grupos na elaboração e nas decisões sobre os usos diferenciados do meio. Saberes que, segundo pesquisadores, garantiram a existência dessas comunidades até hoje.

TEXTO DE APOIO AO PROFESSOR

Etnobiodiversidade é a riqueza da natureza da qual participam os humanos, nomeando-a, classificando-a, domesticando-a, mas de nenhuma maneira nomeando-a selvagem e intocada. Pode-se concluir que a etnobiodiversidade pertence tanto ao domínio do natural e do cultural, mas é a cultura como conhecimento que permite que as populações tradicionais possam entendê-la, representá-la mentalmente, manuseá-la e, frequentemente, enriquecê-la.
(Antônio Carlos Diegues, 2000)

Leia para os alunos a citação de Antônio Carlos Diegues (acima) e questione-os sobre o significado do termo Etnobiodiversidade. Pergunte se já ouviram falar sobre isso; se conhecem seu significado; se podem explicar do que trata este termo. É importante fazer com que participem, opinem, dêem suas opiniões. Vá registrando as respostas dadas no quadro e solicite que os alunos anotem em seus cadernos.
Apresente um mapa-múndi à turma e questione-os sobre os locais onde consideram haver mais etnobiodiverdidade e por quê. Em seguida, divida a classe em grupos de 3 a 4 integrantes e distribua cópias do texto abaixo. Solicite que leiam em grupo e anotem as localidades que são citadas no texto.

TEXTO DO ALUNO 

ONU lança ação para proteger locais sagrados

Uma iniciativa internacional para conservar antigos locais sagrados é lançada na crença de que tais importantes pontos culturais podem ser o cerne para a salvação da decadente biodiversidade mundial. Especialistas apontaram diversos locais como ecossistemas pilotos e de importância global, seja este um ponto no Deserto de Chihuahua no México, onde se acredita estar a origem do Sol, ou mesmo uma rede de cavernas que contêm esqueletos antigos nas florestas Kakamega, no Quênia, veneradas pelos povos Taita e Luhya.

Outros locais sagrados são o Monte Ausangate nos arredores da majestosa montanha Vilcanota, no Peru, a área para rituais em Puntayachi cercada pela rica biodiversidade da região de Cayanpi, no Equador. Um arquipélago em Guiné-Bissau, cujas praias e mangues são utilizados exclusivamente para rituais. Florestas sagradas no distrito de Kogadu, na Índia, que possuem raízes nas tradições artísticas e culturais da região.

O projeto, apoiado por organizações que incluem o PNUMA (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente) e grupos de populações indígenas, como a fundação criada na Guatemala pela ganhadora do prêmio Nobel da Paz, Rigoberta Menchu, assegurou um capital preliminar do Global Environment Facility, fundo de desenvolvimento que conta com bilhões de dólares. Patrocinadores, entre os quais uma variada seleção de organizações de conservação, outras agências das Nações Unidas e governos como o do México arrecadaram mais de 1,7 milhões de reais necessários para o início das ações.

Klaus Toepfer, diretor executivo do PNUMA, disse: "Há evidências claras e cada vez maiores de uma ligação entre diversidade cultural e biodiversidade, entre a reverência à terra e uma localização, uma região que geralmente possui plantas e animais únicos. Infelizmente, locais sagrados também estão sob ameaça e há uma necessidade urgente de ajudar populações indígenas, tradicionais e locais a salvaguardar suas heranças que, por sua vez, podem auxiliar na conservação da diversidade biológica e genética desses povos dos quais todos dependemos".

Em 2002, no Fórum Global para o Desenvolvimento Sustentável em Joanesburgo, na África do Sul, os governos participantes se comprometeram em reverter a taxa de perda de biodiversidade até 2010. "Conservar locais sagrados e sua riqueza biológica pode ter papel central para atingir a meta de 2010 e talvez servir como guia para a promoção de práticas administrativas auto-sustentáveis e de qualidade que possam ser exportadas para regiões vizinhas e se expandir cada vez mais", disse Toepfer.

Rigoberta Menchu declarou: "Pode parecer acidental, mas não é, o fato de que populações indígenas vivem onde também se encontram a maior diversidade biológica e da natureza. Os valores com que as populações indígenas construíram seus complexos sistemas são fundamentados na natureza ética, espiritual e sagrada que conecta nossos povos com todo o trabalho de criação. Essa é a razão pela qual nós exigimos o reconhecimento formal dos nossos esforços de conservação, das nossas áreas de proteção, dos nossos locais sagrados, dos nossos valores éticos que sustentam nosso estilo de vida".

Gonzalo Oviedo, da World Conservation Union, uma das organizações envolvidas, disse: "Localizações ambientais sagradas são áreas ambientais reconhecidas por povos indígenas e tradicionais como sendo de importância cultural e espiritual. Elas variam de montanhas, florestas e ilhas a oásis em desertos, lagos, rios e bosques".

"As comunidades que administram tais regiões têm feito esforços locais para tentar impulsionar as potencialidades dessas áreas, mas até agora ações mundiais estão longe de atingir o nível necessário para assegurar uma mudança global em seus destinos. Esse projeto tem como objetivo forjar uma vasta aliança e atrair a atenção internacional, da qual essa área precisa urgentemente", acrescentou Oviedo.

O projeto Conservação da Riqueza em Biodiversidade de Áreas Ambientais Sagradas será divulgado na 8ª Conferência das Partes da Convenção sobre Diversidade Biológica (COP8), em Curitiba, no Brasil, entre 20 e 31 de março. Uma variedade de iniciativas associando populações indígenas e diversidade biológica estão planejadas para a conferência, inclusive detalhes de outro projeto que tem como meta salvaguardar as diversidades biológica e cultural do arquipélago tropical de Palau, nas ilhas Solomon e Vanatu, no Pacífico.

África - Boloma-Bijagos é um arquipélago com 88 ilhas em Guiné-Bissau com ricos e diversos habitats que vão desde florestas áridas e semi-áridas até savanas costeiras e bancos de areia. A área cobre mais de 100.000 hectares e é conhecida por sua abundância de crustáceos, moluscos e peixes, além de animais como o crocodilo do Nilo e o hipopótamo.

A comunidade de Bijagos segue uma série de regras. Por exemplo, certas áreas têm acesso proibido ou restrito àqueles que já ¿completaram suas obrigações cerimoniais¿. Em muitos lugares, certas atividades como relações sexuais, enterros, derramamento de sangue e construção de instalações permanentes são proibidas.

"Essas práticas tradicionais de Bijagos, que limitam periodicamente o livre acesso a certas áreas e seus recursos naturais, ajudam efetivamente na preservação da fauna e da flora local. Uma transposição interessante é que os locais mais valiosos em termos de biodiversidade também são os mais sagrados", explicou Oviedo. No Quênia, foram assinalados o local de cerimônia Tiriki, no oeste do país, e as cavernas com esqueletos na região costeira. O lugar chamado Tiriki tem atraído enorme interesse de cientistas há algum tempo, já que apresenta resquícios de uma floresta tropical da qual muito se perdeu.

Especialistas suspeitam que os locais de cerimônia abrigam espécies únicas de plantas e animais que se beneficiaram da proteção dos anciãos dos clãs e pelos costumes e crenças tradicionais. Esses estudiosos planejam documentar de maneira completa as plantas, pássaros e répteis presentes no local, bem como promover pesquisas socioculturais nas comunidades da região. Em colaboração com a instituição de Museus Nacionais do Quênia, foi planejada a listagem dos locais-chave e a avaliação do potencial desses lugares para o ecoturismo.

As cavernas com esqueletos de Taita estão localizadas no Arco Leste, um dos locais mais importantes do mundo para a biodiversidade, onde vivem espécies raras e únicas, inclusive de tipos de café. As cavernas, conhecidas regionalmente como Pango, são o local onde esqueletos dos membros masculinos da tribo e de personalidades importantes são depositados. O enorme número de rituais e tabus relacionados às cavernas levou a pequenas, porém importantes relíquias de povos indígenas sobreviventes das florestas, que vivem nos topos de montes como Mbololo e Chawia.

Ásia - O Distrito de Kogadu Ghats, no oeste do estado de Karnataka, Índia, é a principal alameda sagrada do mundo. Seus bosques abrigam a mais rica biodiversidade da área. O distrito consiste de florestas fechadas associadas a jardins em sopés de montanhas e cultivo de arroz nos vales. As alamedas e fontes de água sagradas são o principal meio de sustento da população local, além de fundamental para os rituais de cultivo. O sistema de posse da terra da região das alamedas é unico e, apesar de o título de propriedade ser do Departamento Florestal do Estado, iniciativas recentes do governo reconheceram o papel da população regional na administração do local sagrado.

América Latina - Três cidades no México foram escolhidas para o projeto piloto. Wirikuta fica no deserto de Chihuahuan, no México, um dos desertos mais ricos em diversidade biológica do mundo, comparável apenas ao Namib-Karoo, no sul da África, e ao Great Sandy Desert, na Austrália. Os nativos acreditam que, em Wirikuta, está a origem do Sol. A região estende-se sobre cerca de 140 mil hectares e abriga 70% dos pássaros e 60% dos mamíferos do deserto. O deserto é também o destino mais ao leste de uma peregrinação anual dos ¿jicareros¿ Huichoi, durante a qual os iniciantes comem cactos sagrados que os permitem entrar em contato com divindades e ancestrais.

O local está sob ameaça devido ao turismo descontrolado, à agricultura, à superexploração dos aquíferos, à caça e ao tráfico ilegal de espécies selvagens. A ilha de Tiburon ou Taheojc, localizada no Golfo da Califórnia, México, faz parte de uma área denominada Sarcocaulescent Desert. A ilha, que se destaca pela riqueza de espécies selvagens, como árvores cercidium e arbustos, veados, pássaros e invertebrados, é o único lugar onde ainda se encontra o povo Seri.

Eles acreditam que a ilha é o centro de sua cosmologia ou visão do Universo. Isso se revela por meio de histórias e crenças relacionadas a espíritos e divindades que revolvem em torno do coração da ilha. Problemas econômicos e políticos ameaçam o modo de vida dos Seri e, por consequência, a extraordinária biodiversidade da região. As cavernas sagradas do Vento e da Fertilidade são um local sagrado para os povos Tenek, Nahua e Pame que ocupa oito hectares da região de Huastecan, no estado de San Luis Potosi, no México.

As florestas da região foram devastadas pela criação de gado, deixando uma pequena mancha utilizada como reserva de plantas medicinais.
A área chamada Cayambe, localizada na região leste dos Andes equatorianos, abriga uma vasta ordem de ecossistemas que incluem florestas de altitude, savanas alpinas e florestas tropicais. É também nessa região que vive o ameaçador Condor Andino.

A área tem grande significado espiritual para os Cayanpi e outras populações da região. Montanhas, lagos e rios são reverenciados. Um desses locais é o Puntayachi, onde os povos locais celebram os ciclos do Sol. Outros rituais estão associados com a aparição do Cruzeiro do Sul no céu.

O parque Vilcanota Espiritual, no Peru, faz parte da região da montanha Vilcanota no sul do país e abriga o povo Q¿eros. Há um grande número de espécies nativas únicas na região que inclui vicunhas selvagens, pumas, gansos andinos e importantes espécies de árvores.

Uma variedade de rituais está associada à conservação do ecossistema, como os do cacau, das batatas nativas e das flores selvagens e envolvem proibição da exploração de certos pastos importantes para a região.

 


Após a leitura questione os alunos sobre o conteúdo do texto. Suscite e discussão sobre a importância das medidas propostas pela ONU. São importantes ou não? Por quê? Com base nas anotações das localidades, solicite aos alunos que as indiquem no mapa-múndi apresentado anteriormente (com uma fita adesiva, por exemplo). Cada grupo pode ir até o mapa e localizar um ponto, permitindo que todos participem. Oriente-os na localização, caso tenham dificuldade em encontrar os países.

Incentive a discussão sobre a localização dos pontos marcados no mapa e a relação com a diversidade existente nestas localidades. Lance a seguinte questão e peça que os grupos tragam respostas na próxima aula: Qual a relação entre áreas de maior diversidade de vegetação e fauna com a existência de comunidades diferenciadas daquelas existentes nos centros urbanos?

2ª etapa 

Inicie a aula com a exposição de cada grupo para a questão deixada como tarefa de casa. Promova a discussão com os alunos, questionando-os sobre as respostas dadas. É importante que os alunos consigam estabelecer uma análise crítica sobre biodiversidade biológica e grupos humanos diferenciados e as relações existentes entre estes e a manutenção da biodiversidade.

Questione-os sobre a relação entre o termo desenvolvimento sustentável e a manutenção das comunidades tradicionais com seus modos de vida diferenciados.

Apresente à turma a definição para desenvolvimento sustentável que hoje é a mais aceita internacionalmente: é o desenvolvimento capaz de suprir as necessidades da geração atual, sem comprometer a capacidade de atender as necessidades das futuras gerações. É o desenvolvimento que não esgota os recursos para o futuro.

Entregue aos grupos cópia do Decreto 6.040/ 2007, que institui a Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais e solicite que leiam e anotem os pontos considerados mais importantes. Oriente-os a observar cuidadosamente a definição de populações tradicionais.

Finalizada a leitura, questione-os sobre as idéias que consideraram mais importantes e por quê. Incentive-os a expor suas opiniões. É importante que compreendam o significado de comunidades ou populações tradicionais.

Relembre-os do texto lido na aula anterior, indicando localidades sagradas para determinados povos. Busque com a turma a relação entre a existência dessas comunidades, suas relações com o meio, a conservação da biodiversidade e a importância da manutenção desses povos. Por fim questione-os sobre a eficácia da legislação sobre o tema.

3ª etapa 

Retome as idéias apresentadas nas duas últimas aulas, fazendo um breve resumo no quadro. Com apoio de um projetor ou mesmo com imagens impressas, apresente à turma fotos de populações tradicionais, incluindo imagens de grupos indígenas. Nos seguintes endereços você pode encontrar fotos para a atividade:

Quilombo 
www.reentrancias-ma.blogspot.com

Quebradeiras de coco 
http://180graus.com/geral/cpt-realizara-mobilizacao-com-mulheres-quebradeiras-de-coco-302360.html  

Quebradeiras de coco
www.cinema.uol.com.br  

Pescador 
www.viajeaqui.abril.com.br

Ribeirinhos
www.vivendonaamazonia.spaceblog.com.br

Ribeirinhos
www.fiocruz.br  

Pantaneiros
www.abpopantanalorganico.com.br  

Apresente à classe a seguinte definição para conhecimento tradicional

TEXTO DE APOIO AO ALUNO

O conhecimento tradicional pode ser definido como o saber e o saber-fazer, a respeito do mundo natural, sobrenatural, gerados no âmbito da sociedade não-urbana/industrial, transmitidos oralmente de geração em geração. Para muitas dessas sociedades, sobretudo as indígenas, existe uma interligação orgânica entre o mundo natural, o sobrenatural e a organização social. Nesse sentido, para estas últimas não existe uma classificação dualista, uma linha divisória rígida entre o "natural" e o "social", mas sim um continuum entre ambos.
(Antônio Carlos Diegues, 2000)

Com base no que foi discutido nas aulas anteriores e nas imagens observadas, solicite que cada grupo faça a leitura do texto a seguir. É importante que anotem as palavras que não conhecem para discussão posterior, assim como as idéias que considerarem mais interessantes.

TEXTO DO ALUNO - Os povos da Amazônia

No Brasil das diversidades culturais, pouco sabemos sobre os que vivem na maior floresta tropical do mundo. Suas tradições e modo de organização social destoam do individualista e acelerado ritmo urbano e a distância geopolítica é um obstáculo a mais para enxergarmos suas carências por serviços básicos e dificuldades em tempos de escassez de recursos naturais. Conheça um pouco da controversa realidade desses povos brasileiros que vivem no bioma que mais atrai os olhos de todo o planeta.

A Amazônia está no alvo do mundo. Todas as atenções estão voltadas para esse imenso depósito de carbono, especialmente no ano em que os países irão definir a agenda global do clima. Combate ao desmatamento e incentivos à preservação das florestas estão na ordem do dia. No entanto, a visão macro sobre a maior floresta tropical do mundo não pode ofuscar um olhar minucioso sobre os habitantes de uma região que dá sinais claros de abandono e negligência.

Na terra dos paradoxos, convivem 23,55 milhões de habitantes - mais de 12% da população brasileira -, entre 1000 comunidades quilombolas, cerca de 460 mil indígenas de 225 povos diferentes, seringueiros, ribeirinhos, garimpeiros, grileiros, posseiros, mineradores, grandes agricultores, pecuaristas e madeireiros. Enquanto a média nacional de trabalhadores com carteira assinada era de 31,73% em 2006, na Amazônia, apenas 18,35% deles tinham emprego formal.

O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da Amazônia legal - entre 0,6 e 0,7 - também está abaixo do brasileiro, que já ultrapassou 0,8. Nem o saneamento básico na região, que inclui rede de abastecimento de água, coleta de esgoto ou fossa séptica e coleta de lixo - alcança os esforços feitos no restante do país.

A energia elétrica ainda não chegou a muitos municípios, que são do tamanho de países como a Bélgica ou a Holanda, e as taxas de alcoolismo, incesto e prostituição são as mais altas do Brasil. Apesar do acesso precário aos serviços de saúde, o uso das plantas medicinais e dos conhecimentos tradicionais para a cura de doenças é cada vez mais desvalorizado e condenado por não ser "científico". A Amazônia tem particularidades e só terá suas necessidades atendidas quando o governo lidar de maneira específica com os fatores da região.

Novos valores
"Tudo já existe ali: televisão, internet, refrigerante, dinheiro e a mentalidade consumista estimulada pela mídia", conta Maria Alice Campos, moradora da Floresta Nacional do Purus, no Amazonas e integrante do Conselho das 13 Avós do Planeta.

Segundo ela, a valorização do consumo tem feito com que muitas pessoas vendam suas terras por pouco e facilitem a entrada de madeireiros, pecuaristas e produtores de soja na região. "Eles preferem trabalhar para ganhar uma diária a plantar e colher, porque isso dá dinheiro e dinheiro compra. Mas as pessoas ficam empobrecidas, se tornam empregados sujeitos a tudo, sem direitos trabalhistas, consomem produtos industrializados de péssima qualidade, se alimentam pior e compram uma televisão. E como não há eletricidade, é preciso usar um gerador e trazer gasolina de barco, que sai a 6 reais o litro". O narcotráfico também se aproveita desse contexto e da falta de perspectivas da juventude amazônida para construir suas rotas de infiltração no país longe dos olhos da fiscalização.

Economia da floresta
Se há 15 anos os amazônidas ainda podiam viver do que a própria floresta lhes oferecia, hoje não há mais essa possibilidade. Por isso, além de alimentar o consumismo, o dinheiro é cada vez mais importante para a sobrevivência da população. Caetano Scannavino Filho, coordenador da ONG Saúde e Alegria - que atua há quase 25 anos no oeste do Pará e desenvolve ações de saúde e Educação junto às comunidades ribeirinhas - conta que uma prática muito comum no estado é a pressão da soja nas áreas que já foram desmatadas pela pecuária, levando o gado para a mata virgem, aumentando as fronteiras do desmatamento.

Para ele, a única saída é fortalecer o nível de organização das comunidades, orientando-os em relação à cidadania e ao direito de permanecerem na terra que lhes pertence. "A questão fundiária precisa ser resolvida para que eles tenham sensação de que a terra é deles e ninguém vai lhes tirar".

O trabalho é desafiador, pois "eles têm um sentimento de que não contam com nenhum apoio e, se não venderem as terras a preço de banana, vão acabar perdendo de qualquer maneira", diz Caetano. Nesses casos, a mídia é aliada e repercute as denúncias de ilegalidade nas grandes empresas que atuam sobre a floresta.

João Fortes, fundador da Rede Povos da Floresta, acredita que é preciso que se constitua uma economia sadia dentro da floresta. Por isso, a organização incentiva o replantio de espécies nativas e de árvores frutíferas que convivem bem com as outras espécies, proporcionam sombra para as futuras madeiras de lei e são fonte de alimento e de renda para as comunidades. Outro ponto forte da ONG é trabalhar para que a população receba dinheiro tanto com o replantio quanto com o fato de evitar mais desmatamento, por meio dos créditos de carbono.

Como é baixa - e recente - a circulação de dinheiro na região, essa é uma questão que precisa ser levada em conta. "O dinheiro pode se tornar uma ameaça à estrutura coletiva das comunidades e incentivar o individualismo", alerta João.

Convivendo com a tecnologia
O contato dos povos amazônidas com outras culturas é cada vez maior. E inserir a tecnologia de maneira efetiva para os povos da floresta tornou-se uma questão de sobrevivência para as futuras gerações. Até porque, com a escassez dos recursos naturais, os habitantes precisam cada vez mais de dinheiro para comprar sua subsistência. As exigências do mercado de trabalho, ainda que mais tarde, chegarão à Amazônia: "Um menino hoje que nunca viu computador vai ser excluído quando crescer. Que tipo de geração teremos ali em 2030 se não levarmos tecnologias a eles?", questiona Caetano.

A única maneira de evitar um comportamento passivo diante de tanta informação produzida pelo "povo estudado" é torná-los protagonistas desse processo. É nisso que aposta o projeto Saúde e Alegria, em que a população local é convidada a fazer vídeos, programas de rádio e de TV usando uma linguagem própria para retratar sua realidade e mostrá-la ao mundo por meio do site e do blog da Rede Mocoronga. Na Rede Povos da Floresta, que trabalha com comunidades tradicionais, ainda existe a preocupação de inserir a tecnologia sem abrir mão do contato pessoal e das rodas de conversa, que sempre foram a essência da comunicação desses povos.

A abertura de um novo ponto de internet é sempre precedida de diálogo sobre os benefícios e as desvantagens da novidade e as pessoas, necessariamente, estabelecem um contato real e só dão continuidade à comunicação via web. João Fortes diz que três princípios são pré-requisitos para que a comunidade ganhe um Ponto de Cultura - hoje, já existem 30 deles na Amazônia Ocidental:
- ela deve estar baseada no coletivo;
- tem que ter clareza sobre sua identidade cultural, que deve ser forte, para se posicionar na rede não como consumidora, mas como provedora de conteúdo;
- deve ter a noção de que a terra é parte da cultura do povo e, portanto, a internet precisa ser usada em benefício deste território.

Fonte: Planeta Sustentável

 

Com base nos textos lidos, imagens observadas e discussões, solicite que cada grupo de trabalho já formado escolha uma população tradicional (ver quadro a seguir) e faça uma pesquisa com bases bibliográficas e também consulta à internet, explicando quais são as comunidades tradicionais existentes no Brasil, quais suas origens, seus modos de fazer diferenciados e a localização. O conteúdo será apresentado na aula seguinte, por meio de seminários. Oriente-os nas fontes de pesquisa e na utilização de imagens, mapas e textos de revistas e participe da organização dos seminários, ajudando-os a organizar melhor as informações que serão expostas.

 

4ª etapa 

Retome as discussões realizadas e relembre-os de alguns termos já definidos em sala, como etnobiodiversidade, biodiversidade, comunidades ou populações tradicionais. Organize as apresentações e permita que cada grupo faça sua exposição.
Ao final das apresentações solicite aos alunos, individualmente, um parecer sobre o significado e a importância da Etnobiodiversidade

Avaliação 

Avalie a participação dos alunos nas discussões propostas, o desenvolvimento dos trabalhos em grupo, a cooperação e a troca de idéias. Verifique por meio de questionamentos se os novos conceitos foram aprendidos durante as aulas. Questione-os sobre a importância da manutenção da biodiversidade e a relação dela com as comunidades tradicionais.

Sugestão: Se existir alguma população tradicional ou indígena nas proximidades do colégio, verifique a possibilidade de realizar uma visita ou de trazer um representante para ser entrevistado pelos alunos. Seja qual for o caso, é essencial elaborar um roteiro de visita ou de entrevista.

 

 
Créditos:
Kelly Cristina Melo
Formação:
Bacharel e licenciada em Geografia, atua na formação de professores e em consultoria em meio ambiente.
Autor Nova Escola

COMPARTILHAR

Alguma dúvida? Clique aqui.