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De costas para a cidade

Publicado por 
novaescola
Objetivo(s) 

Refletir sobre a vida em sociedade, a realidade urbana brasileira e a mobilidade de classes

Conteúdo(s) 

 

 

Ano(s) 
Material necessário 
Desenvolvimento 
1ª etapa 

Introdução 

A reportagem da VEJA sobre o sucesso de uma construtora de casas populares a princípio pode parecer algo que interessa apenas à economia, mas ao contrário: ela apresenta uma série de elementos que caracteriza a realidade urbana atual do Brasil. Esses elementos merecem reflexão, porque estão dando o tom do desenvolvimento de nossas cidades, como se fossem naturais as tendências que eles alimentam, como se fossem sem conseqüências, como se as escolhas estratégicas pudessem, ou devessem, passar despercebidas aos cidadãos. Um dos elementos a ser considerado é a naturalização da casa própria, algo visto como a única solução legítima para resolver a questão habitacional. Outro é o modelo do condomínio fechado como uma forma de moradia ideal, que acalenta sonhos de famílias, mesmo em cidades menores. Por que se sonha com isso, não é algo óbvio e muito menos sem conseqüências. As discussões que sugerimos a seguir vão investir numa problematização dos efeitos urbanos que esse modelo reportado de casas pode trazer para as cidades brasileiras.

O fundamental das atividades será conduzido por propostas de discussão que têm um estilo contestador. Sempre que possível, professor, estimule os estudantes a participar de reflexões polêmicas. Trata-se de uma competência fundamental: a capacidade de notar que a maior parte do que nos rodeia é construção humana e que essas construções são valorizadas de acordo com o contexto cultural, social e político da época que vivemos, logo tudo pode ser questionado e repensado - algo que nem sempre há chance de se fazer com o que é natural. Por que discutir a pertinência do sonho da casa própria se é algo natural, que todos desejam e de que precisam? Mas e se não for? E se existirem formas que, conforme a situação, resolvem melhor a questão da moradia? Não seria o caso de debater? Naturalizar fenômenos sociais congela a história e impede a construção de alternativas. Dedique duas aulas a uma avaliação dos temas.

A classe C e o preço das moradias

VEJA menciona que mais de 20 milhões de brasileiros ascenderam nos últimos 20 anos à classe C - que tem uma renda familiar mensal de 3.500 reais. E que esse segmento pode ter agora casa própria. Um primeiro comentário refere-se à essa maneira de classificar os brasileiros segundo a renda. Existem outras instituições que vão chamar o que a Fundação Getúlio Vargas chama de classe C de classe média e enfatizar que são poucos os brasileiros nessa faixa. Cabe aqui atentar para a velha questão da concentração da renda no Brasil. Mas, o mais importante, que precisa ser assinalado e indagado junto aos estudantes: 3.500 reais valem a mesma coisa em qualquer lugar do território brasileiro? Trocando-se o local onde as pessoas moram, o valor da renda pode ter outro significado? Essa quantia pode comprar numa grande cidade a mesma coisa que adquire num município médio ou pequeno? Na própria reportagem não há algumas indicações de um custo de vida inferior fora dos grandes centros (terrenos mais baratos e maiores; custo de administração da construtora mais baixo)? É possível concluir que 3.500 reais não é tão pouco? Do mesmo modo, pode-se pensar no preço da moradia mostrada na revista: as casas são pré-moldadas e sua área construída é de 70 m², o que não é muito. O preço de 85.000 reais é realmente baixo e, especialmente numa cidade do interior? Você não terá dificuldade em encontrar casas maiores em bairros das cidades grandes por esse preço. Mostre exemplos de classificados de jornais para que os alunos constatem isso e peça que reflitam sobre o que mais está embutido no preço - a questão do condomínio fechado, por exemplo.

2ª etapa 

Os condomínios fechados, a valorização dos imóveis e o sonho da casa própria

Nas grandes cidades, em especial em São Paulo e no Rio de Janeiro, há 25 anos assiste-se uma reestruturação urbana profunda cujo personagem principal é um estilo de moradia: o condomínio fechado vertical e horizontal. Atualmente ele está naturalizado como uma forma óbvia e ideal de moradia, que até pouco tempo não existia - trata-se de fenômeno recente. Como são esses condomínios? Eles consistem em torres de apartamentos ou coleções de casas horizontais fechadas em espaços protegidos das ruas e possuem guaritas e segurança para vigiar e fiscalizar os freqüentadores. São centros residenciais que se relacionam mal com as cidades, que de certa forma negam a comunidade que a cerca. Afinal, se protegem do quê? A principal alegação nas metrópoles para a explosão imobiliária com base em condomínios é a segurança, mas eles se transformaram num modelo de habitação que segrega e alimenta visões de posição social. Não é verdade que morar em condomínio dá status? Por que sonhar em morar em condomínio e não com a solução dos problemas de segurança - que certamente diminuíram com um incremento, que insiste em não ocorrer em nosso país, de justiça social? O que ocorre é que esse estilo de moradia se naturalizou e por isso virou representação de futuro, de ascensão social.

É o momento de perguntar: nas médias e pequenas cidades do interior existem os mesmos problemas de segurança que nas grandes? Faz sentido imitar o modelo que prolifera nas metrópoles? Outra questão relevante é a mudança para a periferia. Pode-se afirmar que, ao abandonar as regiões centrais, as pessoas estão contribuindo para sua deterioração? Será que vale a pena se isolar em condomínios, afastados da urbanidade, para realizar o sonho da cada própria? Por que o aluguel, que permite o acesso a imóveis melhores e mais bem localizados é tratado em nossa sociedade como uma deformidade e como dinheiro jogado fora? São indagações polêmicas, que não tem uma resposta simples ou certa, mas o importante é que elas sirvam para desnaturalizar os modelos habitacionais e desenvolver um senso crítico maior nos alunos, criando cidadãos que pensem em suas comunidades e saibam que suas opções individuais são elementos construtores da cidade que habitam. Peça uma redação individual a respeito.

Créditos:
Jaime Tadeu Oliva
Formação:
Geógrafo, professor do UNIFIEO de Osasco (SP)
Autor Nova Escola

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