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Dados da carteira de identidade revelam traços culturais familiares

Publicado por 
novaescola
Objetivo(s) 

Perceber, pela análise dos nomes, como os traços culturais familiares crescem e se ramificam

Ano(s) 
Material necessário 

Reportagem da Veja:

Desenvolvimento 
1ª etapa 

Introdução

Luís Inácio Lula da Silva descende do herói troiano Enéias ou de nobres romanos? Será um primo distante do dramaturgo António José da Silva (1705-1739), o Judeu, condenado e morto pela Inquisição? Ou, o que é bem mais provável, Lula é parente espiritual do Zé da Silva - símbolo da multidão de brasileiros pobres?
Você e seus alunos não encontrarão a resposta no Dicionário das Famílias Brasileiras, embora essa obra monumental traga informações valiosas sobre os grupos familiares que lançaram raízes no Brasil (veja o quadro sobre algumas origens dos Silva). O primeiro tomo, com 2.385 páginas, aborda fundamentalmente famílias estabelecidas aqui até meados do século XIX. O segundo tomo - cujo lançamento inspira o texto de VEJA - focaliza as sucessivas ondas migratórias do período 1880-1950. Use a reportagem como base para examinar em classe alguns aspectos da trajetória dos grupos familiares brasileiros.

Primos do Zé da Silva

Os antigos genealogistas registram diferentes origens para os Silva aristocráticos: eles descenderiam dos Silvios romanos ou de um filho do herói troiano Enéias. Fontes históricas mais confiáveis os apontam como descendentes dos reis de Leão, Estado ibérico medieval. Mas a esmagadora maioria dos Silva brasileiros são os primos do Zé da Silva, espécie de símbolo do brasileiro humilde, e estão espalhados de Norte a Sul do país. A verdade é que o sobrenome mais difundido no Brasil foi adotado por indivíduos de origem africana, como Xica da Silva; por indígenas e degredados; por cristãos-novos, como os Mendes da Silva, do Rio de Janeiro (a família do dramaturgo António José da Silva, o Judeu). E houve também alguns Silva que se tornaram barões do Império, recebendo brasões de nobreza, ainda que diferentes daqueles dos reis de Leão.

Tire cópias do texto de apoio (veja quadro abaixo) e distribua-as entre os alunos.

Para saber mais

Da genealogia à história social
Se você prestar bem atenção, perceberá que até hoje certos núcleos sociais usam uma forma de "contagem" do tempo e de identidade social e cultural baseada na linhagem familiar. Ainda permanecem no campo, nos subúrbios e bairros simples designações do tipo "o Zé, filho da Maria, neto do Seu João do Bar" ou "a Neusinha, irmã do Mané dos Bois, que é filho do João Mineiro". A essas relações de procedência, de linhagem de antepassados e de origem, damos o nome de genealogia. A sucessão dos patriarcas, nos textos bíblicos, mostra que a genealogia foi uma das primeiras formas que o homem desenvolveu para contar o tempo de longo prazo. Foi identificando, contando e nomeando as gerações segundo os laços de parentesco que o passado pôde ser medido e rastreado com relativa precisão. Além disso, certos traços culturais e sociais puderam ser identificados ao longo do tempo. E, à medida que esses grupos cresceram e se ramificaram, tais traços deixaram de se restringir ao círculo familiar e tornaram-se sociais. Mas esse método logo se tornou apenas uma história das estirpes nobres e, sobretudo, um instrumento de poder político, cultural e econômico, pois podia definir os destinos de uma grande herança, por exemplo. Recentemente, a demografia histórica e a história social da família buscam usar a genealogia sem os traços conservadores que ela adquiriu ao longo do tempo. Isso significa recuperar os laços entre determinadas formações familiares e a sociedade mais ampla.

Depois de promover a leitura do texto de apoio em sala de aula, chame a atenção da turma para o fato de que o núcleo familiar assumiu diversas formas e características, transformando-se no tempo e no espaço. Uma família nordestina do século XVI tem certas peculiaridades que a diferenciam de uma família paulista do século XVII ou de uma mineira do século XVIII. Explique também aos estudantes que, numa mesma época, uma família que vive em áreas mais distantes e isoladas no interior organiza-se de modo diferente e tem hábitos culturais distintos daquelas instaladas nos grandes centros urbanos. Os interioranos conservam-se mais fiéis, por exemplo, à contagem do tempo baseada na genealogia.

Divida a classe em grupos e encarregue-os de examinar os temas relacionados a algumas formas familiares do passado mais remoto, de um tempo mais recente e da sociedade atual. Peça que três equipes pesquisem, por exemplo, o Brasil Colônia: como era a família patriarcal, a escrava e a dos homens livres que não possuíam terras e desenvolviam atividades "itinerantes", como os paulistas ou os criadores de gado do sertão nordestino. Outros dois grupos podem investigar o modo de vida das famílias até meados do século XX e os hábitos típicos de hoje. Deixe que cada grupo exponha suas pesquisas e prepare o debate. Procure mostrar como as formas familiares mudam no tempo e não há apenas uma regra para sua organização.

2ª etapa 

Sugira um estudo sobre a presença, no Brasil Colônia, dos cristãos-novos - judeus convertidos à força pelo governo português nos séculos XV e XVI. A turma perceberá que muitos desses indivíduos tinham sobrenomes bem comuns, como Silva e Pereira. Deixe bem claro, porém, que isso não significa que todos os Silva ou Pereira descendem de cristãos-novos.

Peça que os alunos pesquisem as próprias famílias. Em primeiro lugar, encarregue-os de elaborar uma árvore genealógica, identificando cada membro no tempo e no espaço por quatro ou cinco gerações. Sugira também que levantem as características e elementos culturais, como festas tradicionais familiares ou da comunidade, roupas, linguagem, comida etc. Trate de mostrar a eles que a família não é apenas fruto de relações afetivas, mas também um núcleo de identidades e trocas culturais.

Proponha que os estudantes façam um levantamento sobre suas origens, examinando os sobrenomes de pais e avós. Procure mostrar que é possível não apenas agrupá-los pela identidade cultural (como os afro-brasileiros ou os descendentes de italianos, árabes ou japoneses), mas também pela distribuição geográfica (os paulistanos, os mineiros, os nordestinos e assim por diante). Provavelmente a origem familiar apontará grande diversidade (por exemplo, um avô italiano, outro português, uma avó paulista e outra nordestina). O que tamanha diversidade étnica e cultural sugere sobre a formação da sociedade brasileira?

Veja também:

BIBLIOGRAFIA
História da Vida Privada no Brasil
, vários autores, vols. 1 a 4, Companhia das Letras, tel. (11) 3846-0801

 

Créditos:
José Geraldo Vinci de Moraes
Formação:
Professor de História da Universidade Estadual Paulista (Unesp)
Autor Nova Escola

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