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Bossa nova na sala de aula: o ritmo de "Chega de saudade"

Publicado por 
novaescola
Objetivo(s) 

- Apresentar elementos históricos e musicais do gênero bossa nova.
- Sugerir atividades musicais práticas com os alunos.

Conteúdo(s) 

- Definições históricas da bossa nova.
- Elementos musicais da bossa nova.

Ano(s) 
Tempo estimado 
Duas aulas
Material necessário 

Cópias da entrevista “Nós é que influenciamos o jazz” (Veja, ed. 2257, 22 de fevereiro de 2012) para todos os alunos; aparelho de som; lousa ou quadro-negro para anotações; gravações do gênero; duas latas de extrato de tomate (aquela com “serrinha” na lateral); dois palitos de churrasco; fita adesiva; tesoura; areia ou outro material granulado fino; espaço em sala de aula (roda de cadeiras sem carteiras para promover uma participação mais efetiva dos alunos, se possível).

Este plano de aula está ligado à seguinte reportagem de VEJA:

Desenvolvimento 
1ª etapa 

Introdução
A bossa nova é por vezes considerada o gênero musical brasileiro mais bem sucedido no mundo, dada a dimensão cultural e musical que adquiriu. Com o objetivo de levar a bossa nova à sala de aula no Ensino Médio, este plano contém três atividades para que o estudo do gênero seja não só teórico / histórico, mas também musical: afinal, ao estudar a bossa nova, nada mais apropriado do que fazer música ao invés de simplesmente falar sobre música.

A bossa nova está por toda parte – nas letras de Vinicius de Moraes, nas melodias de João Gilberto, nas complexas progressões harmônicas de Tom Jobim, nos teatros, restaurantes e casas de concerto do Brasil e do mundo e também na revista Veja desta semana. O entrevistado das páginas amarelas da edição é o músico Sergio Mendes, radicado nos Estados Unidos, que fala sobre a “sedução brasileira que o mundo inteiro reconhece”. Explorar o gênero musical em sala de aula é falar sobre algo de grande importância na nossa cultura. Vamos começar pela história – que demanda também seu tempo de pesquisa aprofundada – e depois cair na bossa.

Atividade 1: falando em bossa nova...
Para a primeira atividade, procure ler as orientações para guiar os alunos em sala, mas não deixe de fazer uma pesquisa extra para procurar informações que você julgue interessantes para os alunos. Há várias páginas na internet com informações sobre o gênero, os compositores e as canções mais populares. Além disso, há centenas de gravações em sites como o Youtube em que você poderá encontrar as canções clássicas da bossa nova. Também na internet é possível encontrar tutoriais para baixar os vídeos e as canções para serem levadas à sala de aula. Lembre: uma boa aula de música deve ser ativa e com bom material musical disponível.

Nos anos 50, “bossa” era uma gíria carioca que queria dizer maneira, jeito, forma. Ter um modo diferente de resolver as coisas podia ser dito como ter “bossa”. A bossa nova, portanto, é um novo jeito de se fazer música brasileira, com letras simples, novos ritmos, diferentes harmonias. Como vamos ouvir na Atividade 2, a canção “Chega de saudade”, com a nova batida de violão de João Gilberto (que imitaremos na Atividade 3), é tida como o marco zero do movimento, em 1958, e simboliza justamente a origem popular do gênero, uma vez que reunia compositores fora da “velha guarda” da época.

Desta forma, surgiu uma “bossa” nova de se fazer música brasileira, um pouco aproximada do jazz americano – com instrumentos musicais em comum –, mas com musicalidade tropical, traduzindo em complexas harmonias as poesias sobre a “bossa” brasileira de viver.

Em 1962 João Gilberto e Tom Jobim participam da noite da bossa nova no Carnegie Hall em Nova York, promovendo o gênero nos Estados Unidos. A ascensão do gênero, especialmente com João Gilberto, fez com que a música brasileira ficasse internacionalmente conhecida a partir de sucessos como “Garota de Ipanema”. Fundamental é compreender que a música dos grandes novos mestres é bastante complexa, como trataremos na Atividade 2, pois as raízes da bossa nova estão bem firmes na música erudita, como de Villa-Lobos. As progressões harmônicas distanciam-se do óbvio, necessitando grande domínio de técnica para tocar as ainda que paradoxais “simples” melodias.

Para conhecer mais sobre as principais canções e as fases da bossa nova, sugerimos o infográfico disponível no endereço http://abr.io/1laj. Explore esta e outras páginas na internet para aumentar seu repertório sobre o assunto.

Por fim, após a breve contextualização, leia com os alunos a entrevista com Sergio Mendes publicada em Veja. Sugira algumas questões ao final da leitura: quem é o entrevistado? Como ele participou no movimento da bossa nova? Quais as características que atribui ao gênero? Como o gênero teve sua ascensão mundial? De que forma a bossa nova continua popular até hoje, vivendo uma nova fase?

Com base nesses comentários, sugira a audição de algumas das canções em sala para estimular os ouvidos atentos dos alunos.

Atividade 2: a genialidade da bossa nova
Antes de prosseguir, é importante destacarmos dois princípios que caracterizam boa parte da música ocidental, aquela que temos como referência comum no nosso dia a dia, e na qual a bossa nova está incluída. Procure ler estas orientações para poder propor um debate com os alunos, se for o caso. Se precisar, procure mais informações sobre estes conceitos musicais na internet.

O primeiro princípio é o da tensão versus relaxamento (que os estudiosos da estética chamam de arsis e thesis em música), e o segundo, da repetição versus contraste. É claro que a música contemporânea há várias décadas experimentou quebrar estas fronteiras, mas é provável que você e os alunos ouçam quase 100% de música seguindo estes dois princípios em toda a sua vida.

Como um estímulo musical qualquer está sujeito à temporalidade – em outras palavras, acabando a emissão sonora, paramos de perceber o produto musical –, os compositores lançaram mão de um recurso muito simples para fazer com que os ouvintes aproveitem o momento de audição de uma determinada música, “organizando-a” na mente enquanto a ouvem. Trata-se do princípio da repetição x contraste, segundo o qual os compositores intercalam motivos conhecidos a frases novas para que o ouvinte tenha a oportunidade de ouvir coisas novas, mas sempre retornando a frases anteriores, de forma a “visualizar” a música se desenrolando. O tipo mais conhecido de trecho de repetição é o que chamamos de refrão, e mesmo numa sinfonia de Beethoven a forma básica é a mesma da nossa boa música popular: começando com uma introdução, passando a uma frase nova, chegando ao refrão, que aparecerá mais três ou quatro vezes intercalada a novas frases. Trabalharemos com esse princípio na Atividade 3.

Para esta atividade, é importante entendermos algo complementar ao princípio da repetição x contraste, que é justamente o que, segundo Sergio Mendes, “pega as pessoas pelo coração”: a complexa harmonia da bossa nova. Em uma canção, temos duas estruturas musicais complementares: a melodia e a harmonia. A melodia é como um “contorno”, uma linha que podemos assoviar. Pense na canção “Garota de Ipanema”: isto que está na sua cabeça é a melodia, ou seja, uma sucessão linear de notas musicais que, no caso de uma canção, carrega a letra. Já a harmonia é aquilo que todo estudante de música ou instrumentista chamaria de “acorde”. Um acorde é um agrupamento de mais de três notas tocadas ao mesmo tempo. A harmonia é uma sucessão de acordes que sustenta a melodia, como se fosse uma bandeja que a suporta. Para ouvir um exemplo de progressão harmônica, basta afinar os ouvidos e tentar escutar o que os outros instrumentos do conjunto estão tocando enquanto a flauta toca a melodia da introdução de uma canção, por exemplo.

O princípio da tensão x relaxamento tem a ver com a harmonia, pois boa parte da nossa música popular é sustentada por algumas progressões muitíssimo comuns. Se você conhece alguns acordes musicais, ou tem um conhecido que toca violão, toque ou peça que se toque a sequência de acordes: Dó maior, Fá maior, Sol maior. Quando chegar ao último acorde, você certamente terá “vontade” de ouvir novamente o acorde de Dó maior, porque a tensão do acorde de Sol parece “pedir” a volta ao relaxamento de Dó maior. É assim mesmo: algo tão presente na nossa cultura musical que parece natural.

O que acontece com a bossa nova é que, diferente da música popular que se apoia em progressões harmônicas clichês, os compositores do gênero são verdadeiros “ourives”, que estudam profundamente os encadeamentos de acordes até chegarem a progressões harmônicas que dão verdadeiros arrepios! Por isso é que a bossa nova desperta sentimentos tão profundos e complexos em nós, ouvintes.

Na entrevista de Veja, Sergio Mendes afirma que a bossa nova é “algo original com três pontos básicos: simplicidade, força de melodia e requinte harmônico”. A melhor forma de entendermos isso tudo é... ouvindo! Proponha aos alunos a audição de “Chega de saudade” com voz de João Gilberto (disponível em http://abr.io/1lb1). Utilize um bom computador ou aparelho de som para que a atividade seja mais interessante, além de pedir para que os alunos procurem ficar atentos.

Em seguida, ´pergunte aos alunos o que acharam: a música desperta algum sentimento? Há trechos mais “leves” e outros mais “tensos”? Alguém conhece a canção? É fácil cantá-la?
Procure ouvir a música com a turma mais algumas vezes, apenas na parte inicial, e proponha o seguinte exercício: todos deverão traçar o contorno da melodia da canção. Ou seja, se fosse para cantarmos a primeira frase (“Vai minha tristeza e diz a ela / Que sem ela não pode ser / Diz-lhe numa prece / Que ela regresse / Porque eu não posso mais sofrer!”), qual o desenho resultante? Provavelmente será algo parecido com a imagem 1, abaixo: continue para ver como fica.

 Contorno da melodia de Chega de Saudade


Na última audição, agora que os alunos já destacaram a melodia da canção, questione quais instrumentos estão tocando a parte da harmonia, e quais são responsáveis pela parte rítmica. Na parte harmônica, o principal é o violão; no ritmo, veremos na atividade seguinte.

2ª etapa 

Atividade 3: o ritmo da bossa nova
A parte rítmica da bossa nova, como diz Sergio Mendes, emprestou ao jazz e à música americana o “suingue latino”. Chegou a hora de experimentarmos a bossa nova em sala. Ao ouvir a interpretação de João Gilberto da atividade anterior, os alunos chegaram a bater os pés ou imitar o toque de algum instrumento? Pergunte se um deles pode fornecer um exemplo do ritmo que ouviu.

O primeiro que podemos destacar é o que chamamos de pulso: provavelmente todos os alunos serão capazes de bater os pés juntamente com a música, no mesmo ritmo, pois estas batidas regulares são facilmente perceptíveis em nossa cultura musical.

Além deste primeiro, o segundo padrão rítmico é uma série de batidas bem rápidas feitas por instrumentos como o chocalho (ou ganzá): poderíamos imitá-los fazendo com a boca com som: tch, tch, tch, tch, tch, tch, tch, tch repetidamente. Você consegue percebê-lo na canção?

Por fim, o mais complexo é o que o violão toca no início e em boa parte da música: procure cantar a seguinte sequência – tá táaaa tá, tá táaaa tá etc.

Misturando estes três ritmos, podemos fazer a bossa nova em sala de aula. Divida os alunos em três grupos. O primeiro deve bater o pulso (ritmo regular) com os pés; o segundo deve fazer rápidos estalos de dedos; e o terceiro deve bater palmas fazendo o ritmo 3. Será que você consegue propor uma audição com ritmo feito ao vivo?

Agora sugira uma variação: permanecendo com o pulso marcado por batidas dos pés, o ritmo 2 deve ser feito com canetas esfregando o espiral de cadernos e apostilas; e o ritmo 3 deve ser produzido batucando com as mãos no tampo das carteiras ou cadeiras. Que tal a nova orquestra? Proponha nova audição com ritmo.

Por fim, um último jogo em duas partes. Para começar, combine com os alunos que cada pedaço da música deverá acompanhar um gestual:

Introdução: bater os pés no chão, apenas escutando a letra da música
Primeira parte da canção: fazer o ritmo 2 (com estalos de dedos ou espirais de caderno)
Segunda parte da canção: fazer o ritmo 3 (com palmas ou batuque nas carteiras)
Os alunos devem tentar identificar cada parte para evitar confusão. Note que há uma diferença entre a primeira e a segunda parte, e alguns instrumentos marcam esta transição (em cerca de 54” da gravação que estamos usando: aí começa a segunda parte).

Que tal a experiência? Para a segunda fase do jogo, sugira um desafio maior, e procure fazer com que, desta vez, os alunos sejam os responsáveis por descobrir a ordem das partes da música. Utilize a gravação de “Chega de saudade” com voz de Elizete Cardoso (disponível em http://abr.io/1lbN). Temos partes novas, além de uma introdução anterior ao tema conhecido da flauta (que ouvimos na outra gravação, e que nesta começa aos 16”).

Proponha o mesmo código rítmico da gravação anterior, alertando os alunos que há elementos de repetição. Ou seja, em dado momento da canção, eles ouvirão novamente a primeira parte, e deverão prosseguir fazendo o ritmo 2 (e assim sucessivamente).

Qual é a forma da música? Na primeira gravação (de João Gilberto), é assim: introdução - primeira parte - segunda parte. E nesta segunda? Procure ouvir e adivinhar com a turma.

Depois confira a resposta: Introdução do trombone / introdução da flauta / primeira parte da canção / segunda parte da canção / intermezzo com melodia da primeira parte da canção (sem voz) / segunda parte da canção.

Ao ouvirem ativamente a canção para as duas atividades, os alunos terão sua experiência musical ampliada, trabalhando de forma prática com os dois importantes princípios musicais. Afinal, ao ouvirem a canção repetidas vezes, perceberão a forma musical, que é justamente a sua estruturação em termos de repetição e contraste. E terão ouvido mais de seis vezes a mesma canção de forma criativa.

Sugestão final
A Atividade 3 poderá ser ampliada com a construção de dois instrumentos musicais com material do cotidiano, que deverão ser tocados assim: o ganzá de lata de extrato de tomate deverá tocar o ritmo 2, e o tamborim de lata de extrato de tomate com baqueta de grampo de roupa tocará o ritmo 3. O passo-a-passo da construção está na parte final deste plano.

Observações
É importante lembrar que devemos adaptar as atividades para o contexto da turma e do espaço na escola. Além disso, as ideias contidas neste plano não devem ser limitadoras, e sim podem ser formatadas para novos planos, bem como para a discussão de diferentes repertórios. Agora seus alunos conhecem um pouco de mais um gênero musical que está na nossa veia.

Passo-a-passo da construção de instrumentos
1) Ganzá de lata de extrato de tomate
Material necessário: uma lata de extrato de tomate vazia, preferencialmente com a tampa ainda presa; um punhado de areia ou outro material granulado (evite utilizar alimentos para construir instrumentos: procure materiais alternativos como pedrinhas ou miçangas).
1. Limpe bem o interior da lata de extrato de tomate;
2. Adicione um pouco da areia ou material granulado;
3. Feche a tampa provisoriamente com fita adesiva;
4. MUITO IMPORTANTE: teste o som do instrumento chacoalhando a lata na horizontal, com movimentos do pulso para frente e para trás (conforme a imagem 2)
5. Repita a operação tantas vezes quanto necessárias até que o som resultante seja do seu agrado;
6. Feche definitivamente a tampa com fita adesiva.

Ganzá de lata de extrato de tomate

 

2) Tamborim de lata de extrato de tomate com baqueta de grampo de roupa

Material necessário: um grampo de roupa de madeira; fita adesiva; dois palitos de churrasco; tesoura.
1. Abra o grampo de roupa, retirando a mola metálica. Separe apenas uma das metades de madeira.
2. Apare as pontas dos palitos de churrasco utilizando a tesoura;
3. Fixe um grampo de cada lado da peça de madeira usando a fita adesiva. A imagem 3 ilustra o processo.

Tamborim de lata de extrato de tomate

 

Para tocar, segure a baqueta pela peça de madeira, deixando as hastes livres para tocarem na tampa da lata de extrato de tomate. Se achar que o som é melhor, utilize a tampa de baixo, que não terá sido aberta.

Avaliação 

A proposta para esta aula é promover discussões com os alunos sobre o gênero bossa nova. Desta forma, deve haver um comprometimento dos alunos na medida em que é necessário participar e concentrar-se nas atividades para que estas discussões aconteçam naturalmente no decorrer das atividades: a participação é fundamental. O aproveitamento pode ser medido a partir das indagações e do interesse dos alunos, bem como pela participação nas atividades musicais. Procurou-se listar atividades possíveis de serem realizadas em sala de aula com poucos recursos e levando em conta as possibilidades de trabalho musical do professor de Ensino Médio.

 

Quer saber mais?

Plano de aula de BRAVO! na Sala de Aula oferece orientações sobre como confeccionar outros instrumentos musicais alternativos que podem servir para esta sequência.

 

Créditos:
Tiago Madalozzo
Formação:
Mestre em Comunicação e Linguagens pela Universidade Tuiuti do Paraná, professor assistente do curso de Música - Educação Musical da Universidade Federal do Paraná e professor de musicalização na Alecrim Dourado Formação Musical, em Curitiba.
Autor Nova Escola

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