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Analise o preconceito em relação à música "brega"

Publicado por 
novaescola
Objetivo(s) 
  • Investigar as raízes da música popular brasileira no século XX
  • Relacionar os estilos musicais romântico-populares da música brasileira que deram origem ao estilo "brega"
  • Definir as principais características da música brega
  • Questionar os motivos pelos quais, apesar da grande popularidade, a música "brega" é considerada por muitos como um gênero menor da música brasileira
Conteúdo(s) 
  • Música popular romântica contemporânea
  • Características da música popular brasileira
  • Cultura popular no Brasil do século XX

 

Ano(s) 
Tempo estimado 
Duas aulas
Material necessário 

- Cópias da reportagem "Pororoca moderna", de Mário Mendes (VEJA, edição 2268, 9 de maio de 2012)
- Músicas pré-selecionadas de Roberto Carlos (Quando), Odair José (Uma vida só - pare de tomar a pílula); Eduardo Dusek (Brega e Chique - Doméstica); Gaby Amarantos (Ex-mai Love), Chico Buarque (Olhos nos olhos); Caetano Veloso (Muito Romântico)
- Computador com caixas de som e acesso à internet.

Este plano de aula está ligado à seguinte reportagem de VEJA:

Desenvolvimento 
1ª etapa 

Introdução 

Nesta semana VEJA destaca o hit "Ex-mai love" da cantora paraense Gaby Amarantos,  tema da personagem Chayene, vivida por Cláudia Abreu na novela "Cheias de Charme" da TV Globo. A reportagem é um excelente ponto de partida para observar as razões do grande sucesso da música brega, bem como analisar sua rejeição por setores intelectualizados da sociedade.
Para apresentar o tema, selecione músicas ou trechos de músicas de alguns representantes do "brega": Roberto Carlos (que talvez seja o único com certo reconhecimento incontestável); Reginaldo Rossi; Odair José; Maysa; Orlando Dias e Agnaldo Timóteo são algumas sugestões. Observe elos entre as letras e os arranjos das canções. Note que a dor de cotovelo, o ciúme e o amor impossível ou perdido são temas comuns. São comparáveis também a cadência e o ritmo das canções.

Inicie a aula perguntando aos alunos o que caracterizaria o "bom" e o "mau gosto" musical. Questione o que faz o tema romântico ou sentimental ser considerado bom ou ruim. Mostre que o tema sentimental está presente na música brasileira, de modo geral. A maioria dos nossos autores - sejam os considerados contestadores ou poéticos, como Chico Buarque ou Caetano Veloso, os roqueiros como Cazuza ou Renato Russo, ou artistas contemporâneos como Skank, Pitty ou Jota Quest - já compôs, gravou ou cantou músicas românticas.
Após essa introdução, distribua cópias da reportagem "Pororoca moderna" e proponha uma leitura. Aponte no texto, em conjunto com os alunos, as características do estilo da cantora Gaby Amarantos e da personagem Chayene de "Cheias de Charme". Peça que os alunos destaquem o que há de comum entre o estilo musical tecnobrega e as características da personagem associada à canção.
A seguir, contextualize a tradição musical cafona na música brasileira, desde o samba-canção e o bolero, passando pelas canções românticas da Jovem Guarda, culminando com o brega da década de 1970. Demonstre que as canções que falam de  sempre fizeram grande sucesso de público, mas nem sempre foram unanimidade entre a crítica musical brasileira.

 

O QUE EXPLICAR PARA A TURMA 

No livro "Eu não sou cachorro não", o jornalista Paulo Cesar de Araújo observa que a música brega não se vincula nem à tradição folclórica da nossa música popular, nem à chamada "modernidade" da bossa-nova e do tropicalismo. Os temas cotidianos, os amores impossíveis ou perdidos, a dor de cotovelo, e também temas como sexo, homossexualismo e religião, eram considerados de mau-gosto por setores da sociedade brasileira, que torciam o nariz para artistas como Odair José, Waldick Soriano, Agnaldo Timóteo, Evaldo Braga, Benito di Paula e Sidney Magal, entre outros. Ainda que ao longo da evolução da música brasileira muitos cantores e compositores tenham usado o romantismo como tema, o estigma do mau gosto reforçou um preconceito que persiste até hoje. O apelo popular deixou de ser reconhecido como uma expressão legítima de muitos brasileiros. As canções bregas, românticas ou cafonas sempre foram exemplares no quesito sucesso, venda de discos e apelo popular.

Apesar da popularidade, esses artistas foram rotulados como produtores de "música para pessoas sem cultura" e "analfabetos". Associada ao gosto de empregadas domésticas, faxineiras, comerciários, porteiros e trabalhadores da construção civil - como se essas classes não tivessem o direito a uma cultura musical -, a música brega sempre esteve ligada à quem não teria condições de diferenciar a "boa música" da "música ruim" - considerando a "boa música" aquela que caía no gosto da classe média urbana e universitária brasileira.

É interessante observar, entretanto, que o estilo romântico-popular marcou a música brasileira desde suas origens, desde a melancolia das modinhas, no século XIX às canções românticas associadas ao samba-canção e ao bolero, nas décadas de 1940-50. Mesmo a música "intelectualizada", como a bossa nova, a MPB e o Tropicalismo, teve seus rompantes de sentimentalismo. Como mostra a obra de Francisco Alves, ou de cantoras como Dolores Duran, Maysa e até mesmo Elis Regina, ou ainda alguns discos de Caetano Veloso e Chico Buarque.

A partir da década de 1990, o "brega" esteve relacionado à música produzida no Norte e Nordeste. Primeiramente, o fenômeno da lambada (que chegou a atrair o interesse de artistas como Caetano Veloso, Moraes Moreira e Gal Costa) produziu uma explosão musical que chegou à televisão, por meio de trilhas de telenovelas, e se tornou popular em todo o país. A partir dos anos 2000, a música popular produzida nos estados do Norte, especialmente a chamada "guitarrada", passou a dominar as paradas de sucesso - e outra vez, repetiu-se o mesmo discurso depreciativo, que via em conjuntos como Calypso (com seu guitarrista Chimbinha e a cantora Joelma) decadência e perversão da "verdadeira" música brasileira. O preconceito não impediu a popularização do estilo, e também o reconhecimento da "guitarrada" e do "brega" como legítima expressão das massas populares do Norte do Brasil. Paralelamente ao movimento "brega", a cafonice continuou fazendo parte da música popular, especialmente através do pagode industrial das décadas de 1990/2000 (ver grupos como Raça Negra, Negritude Jr., e cantores como Arlindo Cruz, Alcione, Dudu Nobre), e da música "romântica", que tem em Roberto Carlos, desde a década de 1970, seu maior ícone.

O fenômeno do "tecnobrega" ou do "tecnomelody", que une a guitarrada paraense à batida eletrônica, não é uma novidade: na década de 1970, cantores como Sidney Magal, Gretchen e até mesmo Odair José flertaram com a música Disco. A música cafona sempre esteve ligada à dança: com o bolero, nas décadas de 1940 a 60, ou música brega dos anos 1970, que eram executadas em cabarés, boates e inferninhos; a lambada e a guitarrada, que até hoje são tocadas para serem dançadas em bailes populares e "festas de aparelhagem", originárias do Norte e Nordeste, e que já são um fenômeno cultural nos grandes centros do Brasil.

 
Deve-se observar que certas características da música cafona permanecem: ainda que a "dor de cotovelo" do bolero tenha um viés mais melancólico, é possível encontrar na temática do abandono, da traição e dos apelos amorosos elementos que unem os adeptos da música cafona. E ainda, a sonoridade, os refrões fáceis, a cadência, o ritmo e os arranjos das canções do brega setentista em muito se assemelham à guitarrada e ao tecnobrega atual. A fusão de estilos também sempre foi marcante para esse estilo musical: é consenso entre pesquisadores que muitos cantores bregas dos anos 1970 sofreram influência da Jovem Guarda. E o tecnobrega é uma mistura de ritmos populares, como carimbó, o siriá, o samba, a lambada, o reggae e o calipso. Essa fusão de estilos garante a popularidade e a difusão pelo rádio e pelas redes sociais da música que é feita para dançar - e que usa da dor de cotovelo, do romantismo, do mal do amor,  fonte para uma música alegre, marcada pela batida e pela dança.

Apresente trechos das canções "Tenho ciúme de tudo", de Orlando Dias; "Quando", de Roberto Carlos; "Uma vida só", de Odair José; "Brega e chique", de Eduardo Dusek. Evidencie as semelhanças entre o estilo, o ritmo e os temas: o ciúme, o exagero sentimental, a dor de cotovelo e a melancolia do bolero e do samba-canção; os temas românticos "água com açúcar" e os arranjos das canções da Jovem Guarda; os temas polêmicos, os tabus, as descrições de romances e os arranjos da música brega da década de 1970; a fusão de estilos no tecnobrega/ tecnomelody dos anos 2010.

Ao final, indique aos alunos que, em grupos de três ou quatro, elaborem uma pesquisa sobre a definição de música brega e cafona, e também sobre as possíveis razões que levam essas músicas à marginalidade por setores intelectualizados da sociedade. Peça que pesquisem letras de canções dos períodos analisados na aula e proponha que façam uma comparação entre os temas, o ritmo, o modo de cantar, os arranjos das canções pesquisadas. A ideia é que na aula seguinte, além de uma definição do cafona, cada grupo apresente as características que possam aproximar o tecnobrega da tradição brega da música brasileira.

2ª etapa 

Comece com a apresentação da pesquisa feita pelos alunos. Pergunte se chegaram a uma definição sobre o estilo brega/ cafona, e também se é possível encontrar uma justificativa para a marginalização desse estilo. Anote na lousa os resultados e os conceitos destacados.
Distribua as letras e execute as canções "Ex-mai Love", de Gaby Amarantos, e "Olhos nos olhos", de Chico Buarque.

Letras das músicas

Ex my-love (Gaby Amarantos)
Meu amor era verdadeiro,
O teu era pirata
O meu amor era ouro
E o teu não passava de um pedaço de lata
Meu amor era rio
E o teu não formava uma fina cascata
Meu amor era de raça
E o teu simplesmente um vira-lata
Ex my love, ex my love,
se botar teu amor na vitrine, nem vai valer 1,99

Olhos nos olhos (Chico Buarque)

Quando você me deixou, meu bem
Me disse pra ser feliz e passar bem
Quis morrer de ciúme, quase enlouqueci
Mas depois, como era de costume, obedeci

Quando você me quiser rever
Já vai me encontrar refeita, pode crer
Olhos nos olhos, quero ver o que você faz
Ao sentir que sem você eu passo bem demais

E que venho até remoçando
Me pego cantando
Sem mais nem porquê
E tantas águas rolaram
Quantos homens me amaram
Bem mais e melhor que você

Quando talvez precisar de mim
Cê sabe que a casa é sempre sua, venha sim
Olhos nos olhos, quero ver o que você diz
Quero ver como suporta me ver tão feliz

Pergunte aos alunos se é possível comparar o tema das duas canções. Anote na lousa as principais semelhanças encontradas. Questione os alunos sobre as razões que fazem com que a música de Gaby Amarantos seja considerada "brega" e a de Chico Buarque seja considerada "poética"

- Há preconceito ou arbitrariedade na conceituação?Quais os motivos para isso? 
- A música de Chico Buarque faz mais ou menos sucesso que a música de Gaby Amarantos?
- O sucesso popular é motivo para depreciar uma canção, um artista ou um estilo musical?

Para encerrar peça que produzam um texto dissertativo sob o seguinte tema: "A música brega: mau-gosto popular ou preconceito das elites?"

Avaliação 

Observe se os alunos compreenderam as origens da música romântica e popular no Brasil. Com base no texto, verifique se identificaram as características da música brega e se entenderam como sua marginalização está ligada às classes sociais que costumam apreciar o estilo.

Quer saber mais?

Bibliografia
Eu não sou cachorro não - música popular cafona e Ditadura Militar. Paulo César de Araújo Record, 2007.
O brega no espelho. Rafael Cariello. Revista Piauí, número 66, março de 2012.

Discografia
Chico 50 anos - O Amante. Chico Buarque. Universal, 1997.
Série Bis. Orlando Dias. BMG, 1999. .
Eu não sou cachorro não. Vários artistas. Universal, 2004.
Roberto Carlos em ritmo de aventura. Sony, 2005.
Série Sem Limite - Vol. 2. Odair José. Universal, 1997.
Treme. Gaby Amarantos. Som Livre, 2012

Filmografia
Waldick- sempre no meu coração. Patrícia Pillar. Documentário. Cor. Brasil, 2009. 58 minutos.

Créditos:
André Luis Rosa e Silva
Formação:
Professor de Literatura e Mestre em Educação pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), PR
Autor Nova Escola

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